Humor, ironia
Eu, você e qualquer outro ser humano não viemos para este mundo de “gaiato no navio”. Não, meu amigo! Chegamos aqui sabendo da trajetória que nos espera e aceitando o destino que nos foi reservado.
Com certeza, você já passou por algo desse tipo:
— Então, o senhor é o próximo a descer?
Pergunta um arcanjo de asas reluzentes, chefe do setor de Retorno e Ascensão, já mostrando qual seria o meu destino. E continuou:
— Meu filho, você pode voltar agora. Vou te mostrar um breve resumo do que te aguarda por lá e, após sua aceitação, terá seu destino sacramentado.
Antes de concordar, ponderei:
— Mas tem que ser mesmo no Brasil?
— Tem, sim. E no Nordeste — respondeu o arcanjo, com um olhar piedoso.
— Não pode ser pelo menos em Minas? Fica ali coladinho!
— E lá eu vou ser o quê? Cantor de embolada, humorista ou vou ser um daqueles aboiadores?
— Pelo seu antepassado e por ser um mundo de provas e expiações, o melhor que eu posso te oferecer é isso mesmo: o Nordeste. Lembra, meu filho, aquela bufinha que você soltou no elevador e jogou a culpa no surdinho do seu lado? Aquilo foi a gota d’água que te impediu de ir para algo mais elevado, tipo Copenhague.
Então, quando chegou o dia, eu voltei, em uma condição extremamente humilhante. Lembro que o primeiro som que ouvi foi o horripilante zabumba, triângulo e sanfona, que davam o ritmo àquilo que depois soube ser um tal de forró.
Então, minha vida começou com a eterna substituição: Mucilon por araruta, manteiga por margarina, azeite por óleo, carrinho elétrico por um de 1,99, leite Ninho por Itambé, Lacoste por C&A. E continuou até os dias atuais.
Contudo, a única coisa que não foi substituída durante toda a minha existência foi a verdade pela mentira. Acho que consegui negociar com o Arcanjo esse quesito e ele deve ter me orientado – é fácil, meu filho, é só não entrar para um certo partido político.