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Textos

Os ventos do Norte não movem moinhos

Os ventos do Norte não movem moinhos

Os ventos do norte não movem moinhos, mas o do Sudeste, que açoita minha casa, tirou o meu portão do trilho.

Isso mesmo, meu amigo. Agora estou sentado de vigia, esperando o técnico vir colocar esse “trem” nos trilhos.

Entre uma olhada para as horas e outra, me lembrei do vigia da casa dos meus avós.

O senhor Estanislau, o nome já entrega a idade, era o responsável pela segurança do casal de velhos e de uma enorme casa com amplos janelões e porta de vidro.

As grandes tarefas do “segurança patrimonial” eram abrir e fechar o portão para o carro do meu tio entrar e fechar a garagem. Nas férias de julho e do final de ano, acrescentava-se à labuta do Estanislau a abertura do portão para o jovem aqui entrar. Além disso, ele podia se entregar aos braços de Orfeu tranquilamente.

Minha família nunca foi muito boa na questão de vigia. Na indústria, a segurança era entregue ao senhor Euxêncio.

De baixa estatura, manco, com um chapeuzinho, um bigodinho tipo Clark Gable e com um porrete que ele denominava de macaca, falava para os quatro cantos da sua brabeza.

Cansei de, antes de ir para a boate, passar na fábrica e bater no portão somente para ver o Euxêncio pegar ar. Mas o que eu preferia era passar trote para ele. Onze horas da noite e eu ligava.

A voz cansada e sonolenta, nada amigável, atendia:

— Alô...

E eu:

— Quem fala?

— Oxênço — ele pronunciava o nome dele assim.

Eu não ia perder a piada.

— Oxênço... deixe eu comer seu cu...

Imaginem o estouro que esse homem dava.

Na verdade, eu gostava de um trote. Tinha um senhor vizinho de minha mãe, bruto de dar medo. Um torcedor fanático do ABC. Em uma dessas decisões dos anos 70, o América venceu com gol do Ivan e foi campeão.

Eu tinha que passar um trote para “Seu” Gusmão.

— Alô, queria falar com Gusbão.

— Aqui não tem Gusbão, é Gusmão.

— Sim, Seu Gusbão, aqui é o Ivan.

— Que Ivan?

— O do América...

Ponto. Minha saudosa mãe levou todo tipo de nome. E eu também.

Acho que esse espírito brincalhão continua nos meus dias atuais. Não teria outro motivo para escrever tantas merdas se não fosse a força dos ventos do Sudeste movendo meus neurônios.

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 17/08/2026
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