Humor, ironia
Quem Bateu à Minha Porta?
A música silencia e a campainha sonoriza o ambiente.
Da calçada vem uma voz explicando:
— Deixei a música terminar para não atrapalhar.
— Sim, mas diga...
— Estou com fome. Qualquer coisa serve.
Abri o portão e ele estava lá.
— Sou eu, Luís Eduardo.
— Que belo nome. Tenho um primo com esse nome. Só que ele é historiador.
— Eu vinha muito aqui, há uns três anos.
Mesmo sem me lembrar dele, confirmei:
— Sim, claro, Luís Eduardo. Estava viajando?
A resposta veio seca e verdadeira:
— Não, preso.
E se foi, mas deixou a certeza de que ainda nos veremos muitas vezes. A não ser que "viaje" novamente.
Sempre aparece gente assim por aqui.
Certa vez, um outro, depois de pedir comida e água, pediu um sabonete e uma muda de roupa.
Com os olhos cheios de lágrimas, falou:
— Estou fedendo.
E abriu os braços, como se me mostrasse tudo o que havia sobrado de um ser humano.
Eu, com os olhos mais cheios de lágrimas do que os dele, tratei de fazer o seu enxoval.
Antes do até logo, ainda fez mais um pedido:
— O senhor podia me dar um perfume também?
E eu realizei o seu sonho.
Nunca mais tive notícias dele. Também, cheiroso e bem-vestido, deve ter se casado.
Entretanto, também aparecem os espertos.
O rapaz que corta nossa grama, ao ver um jovem parado no meu portão, me alertou:
— Seu Luciano, esse aí é um ladrãozinho. Rouba para comprar drogas.
Fui atendê-lo já conhecendo sua ficha corrida.
— O senhor pode me dar um trocado?
— Posso. Mas vou lhe avisar uma coisa: se você passar para o lado de dentro desse muro, não volta vivo. Entendeu?
Contudo, a melhor dele foi tocar minha campainha às onze da noite querendo me vender um par de tênis.
— Quer comprar esse tênis?
Olhei bem para ele e respondi:
— Você acha que eu sou receptador de produto roubado? Saia logo da minha frente antes que eu arranque seus ovos.
Pronto. Até hoje não sei por que ele me obedecia tanto. Devia ter usado esse método com os meus filhos.
Meu amigo, atendi o esperto, o Luís Eduardo, o desconhecido arruinado pela vida e o viciado pedinte. Acho que aprendi muito com eles. Dei tão pouco a cada um e eles me retribuíram com esta crônica.
Na casa do Senhor há muitas moradas... e muitos moradores.