Humor, ironia
Minha mãe era do tempo em que se colocava pregos ou cacos de vidro no muro para proteger a casa. No caso dela, acho até correto, pois muito cedo passou a morar sozinha.
Lembro que, no dia do jogo Brasil e Holanda, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, ela foi assistir à partida na minha casa. Claro que não estava nem aí para o futebol. O que realmente importava era o San Rafael de que tanto gostava.
Ela confiava a segurança do seu patrimônio nos pregos, tanto que fazia questão de dizer quantos quilos havia colocado e quanto aquele investimento garantia de proteção.
Certa vez, sua amiga Zilda comentou:
— Nossa, Lúcia, tanto prego assim dava pra Noé fazer a arca e ainda sobrava.
Voltando ao fatídico dia: logo após o jogo, ela voltou para casa. Não demorou muito e o telefone tocou.
— Meu filho, entraram aqui em casa. Reviraram tudo…
Perguntei de pronto:
— E os pregos?
— Graças a Deus não levaram. Mas o filho da mãe fez cocô aqui no terraço.
Fui até a casa dela verificar — não o cocô, mas se faltava alguma coisa e se havia alguma gota de sangue pela casa. Nada. Tudo limpo. Apenas um cocô repousando, solene, no centro do terraço.
Dias depois, ela me ligou novamente:
— Meu filho, descobri como eles entraram aqui. Pregaram uma tábua por cima dos pregos. Imagine o meu prejuízo… vou ter que tirar tudo isso e partir para os cacos de vidro.
Até hoje fico em dúvida se isso foi um upgrade na segurança ou não.