Humor, ironia
Rompendo com o Bom Velhinho
Pronto. Juro que essa foi a última vez que mando uma cartinha — agora, e-mail — para o Papai Noel.
Isso mesmo, meu amigo e minha amiga.
Louco, eu? Não. Apenas alguém que ainda acredita no imponderável.
No e-mail que enviei, fiz um desabafo e um pedido.
O desabafo registra meu profundo descontentamento com a postura do “bom” velhinho. Desde 1960 venho solicitando minha lembrancinha e, até agora, nada de valor.
Não conto caixa de lenço, perfume Lancaster nem meias.
Isso não é presente.
É ofensa pessoal.
Mesmo com tantos desapontamentos, neste Natal resolvi pedir algo fácil, simples e que, pelo tamanho da barriga dele, com certeza conhece profundamente.
Solicitei uma peça de picanha.
Fiz apenas uma exigência: um dedinho de gordura.
Minha mulher, esperançosa como eu e com medo de ter que ir para a cozinha, sugeriu:
— Homem, inclua logo os acompanhamentos.
Mas eu não quis abusar da boa vontade do Barba.
Porém, querido leitor, naquela noite tive um pesadelo horrível.
Era ele, Noel, abrindo meu e-mail e fazendo observações que eu jamais esperei ouvir de alguém que personificava a bondade.
— Não é possível… ele de novo… — exclamava o entregador voador.
E, num grito, decretava meu destino:
— Raimundelssen, vá ao freezer e traga dois quilos de pé de galinha pro Luciano. Porra, que saco.
E o Gnomo — pergunta:
— Vai na entrega especial, junto com as lagostas do Careca do INSS?
— Não. Manda pelos Correios mesmo. É pra chegar só em fevereiro.
Acordei tão perturbado que, num ato de desespero, mandei o velho filho da puta enfiar os pés de galinha no bufante.
Pronto. Relações cortadas com mais um enrolador profissional de sonhos.
Próximo Natal, vou de Fada do Dente.
Quem sabe ela não me manda uma escova elétrica.