Humor, ironia
Boa noite, gente bonita de Natal!
Que coisa boa ver esse teatro cheio.
Quem veio pela primeira vez ao teatro, levante a mão.
Não… você de óculos escuros não vale.
Claro que é sua primeira vez… de óculos escuros…
O quê? Hã… ah… desculpa.
Não sabia... alguém tem colírio pra pingar nos olhos desse rapaz?
E aí, o que vocês estão achando de Natal?
E dos buracos de Natal, hein?
Olha, pessoal, vocês estão numa cidade privilegiada.
Temos o maior cajueiro do mundo.
Isso mesmo.
Pra quem gosta de batida de caju, é uma maravilha.
Tem carne de sol com macaxeira…
Sim, é a mesma coisa que aipim.
Que é uma beleza, principalmente para os hipertensos.
Aqui é tudo muito bom.
E o povo… nossa senhora… é muito acolhedor.
É uma questão de solidariedade.
Já basta vocês serem assaltados nos restaurantes e hotéis…
mas a cidade é muito boa.
Muitos vêm a passeio e ficam.
Também levaram sua carteira com tudo…
Os pontos turísticos: além do cajueiro, tem o Morro do Careca.
Morro, morro mesmo não…
montinho.
Mas não importa.
Se você for a Ponta Negra, sentar numa barraca e pedir alguma coisa,
você nem vai ligar pro Morro do Careca.
Você deu seus olhos como pagamento
por duas águas de coco.
Aqui o comércio tá em alta.
Pra você ter uma ideia, até um shopping foi vendido.
A turma vendeu as mercadorias, as lojas
e aproveitou venderam o shopping também.
Não, meus amigos…
não foi pro Careca do INSS.
As praias são a maior atração do nosso estado.
Lindas praias, areias sem cocô e águas mornas…
Parece aquelas estâncias termais de Minas.
Só que sem urina.
Aquele sol torrando seus miolos
e aquela água fervendo seu furico…
Uma combinação perfeita
pra uma insolação.
O quê? Não gostou?
Então vá pra Recife alimentar tubarões
ou pra Fortaleza assistir a show de humor
enquanto seu celular é roubado.
Nos últimos anos, Natal cresceu tanto
que a Estátua da Liberdade se mudou pra cá.
Fica ali no estacionamento da Havan.
Outra coisa que comprova o crescimento da nossa capital
são os engarrafamentos.
Enormes.
Você perde uns 10 minutos.
Isso mesmo… 10 minutos.
Atenção, paulistas…
podem rir.
“Fiquei preso no engarrafamento.”
Essa é a frase que todos nós queremos usar.
Estou até com medo de esse tema ser incluído
em algum programa de partido político.
Não pra complicar…
mas vá lá que ele resolva..
Uma coisa bem característica do potiguar
é tomar pra si o que é de todos.
O sol, por exemplo.
De uma hora pra outra, alguém olhou pro céu e afirmou:
“Esse sol reside em Natal.”
Daí… Cidade do Sol.
Isso é porque não tinha nada mais chamativo.
Veja bem:
como a gente ia gritar aos quatro cantos do mundo:
“Natal, cidade da ginga com tapioca!”
Agora, meu amigo, me diga:
quem em Londres vai entender
“Natal, city of ginga with tapioca”?
Alguém acha que um apelo desses
vai lotar algum voo pra Natal?
Imagina um inglês falando pra esposa:
“Amor, descobri um cantinho lindo
pra gente comer ginga com tapioca.”
Veja a diferença.
“Amor, descobri um cantinho lindo
pra gente sair desse frio.
Vamos pra Cidade do Sol.”
A mulher pode muito bem responder:
“Vá só.
Se você quer fritar seus ovos,
o problema é seu.”
Mas é isso.
Natal é a cidade do sol.
Não porque brilha…
mas porque nunca se põe.
Eu nasci aqui.
Então posso reclamar do calor,
do preço,
dos buracos
e do trânsito de 10 minutos.
Isso não é reclamação.
É identidade cultural.
Porque natalense não sofre:
se adapta e ainda rir.
Boa noite, Natal.
Cidade do sol…
e da resistência térmica.