Humor, ironia
A Grande Data
Ontem era 19 de novembro.
Sim: o Dia Internacional do Homem.
E nós deixamos passar batido — eu, você, todos.
Só fui descobrir à noite, depois de lavar a louça do jantar.
A pia limpa, a consciência também, e a sensação súbita de que eu tinha perdido algo… embora não soubesse exatamente o quê.
Minha primeira reação foi anunciar o acontecimento para minha mulher, como quem entrega uma prova irrefutável de injustiça histórica:
— Amor, hoje é o Dia do Homem. Se eu soubesse antes, não teria lavado as louças.
Ela acolheu minha revelação com toda a exuberância possível em uma única sílaba:
— Tá.
E assim o assunto morreu.
Sem velório, sem discurso, sem sequer um sorriso protocolar.
Mas, meu amigo, sejamos francos: o que eu esperava de um dia desses?
Ser recebido no supermercado com flores? Um bolo comemorativo na entrada da loja?
Claro que não.
Aplausos no setor de frios… talvez.
Só que não teve faixa anunciando promoção de cerveja, nem locutor exaltando desconto no carvão.
Nada. Apenas forró. Muito forró.
Na galeria, as vitrines seguiram seu curso natural, ignorando solenemente nossa existência.
Nenhum vendedor me desejou “feliz dia do homem”.
E fica a pergunta: será que a gente não merece um agrado, um mimo, um carinho coletivo — pelo menos uma vez no ano?
Os órgãos públicos, que organizam maratona até pra comemorar a inauguração de cano d’água, não tiveram coragem de marcar sequer uma meia-maratona.
Nada. Nem uma caminhadazinha no parque pra inglês ver.
Mas, aqui entre nós, não vejo culpados.
Tem tanto “dia de alguma coisa” que a graça se perdeu.
Tem dia da toalha, do quadril, da perereca, do idoso, do café, do abacate — e, se ainda não inventaram, falta só o Dia da Bufa, porque o resto já arrumaram.
E agora eu entendo perfeitamente por que as mulheres anunciam o seu com tanta antecedência: fazem campanha, fazem barulho, fazem o calendário inteiro tremer.
A gente não. A gente chega mudo e sai calado, com o pano de prato no ombro.
Além do mais, pra que comemorar o nosso dia se o mês de novembro inteiro já foi reservado para o nosso grande presente anual?
O dedo no furico.
Sim, amigo. É isso que nos coube.
Novembro é nosso, mas não do jeito que a gente gostaria.
Ainda assim, mantenho um fundo de otimismo — teimoso, talvez.
Já marquei na agenda.
No próximo ano, quando chegar o grande dia, prometo:
eu lavo a louça de novo.
Mas não enxugo.
Se quiser ler outras crônicas minhas reunidas, deixei um e-book disponível no meu perfil.