Humor, ironia
O Ensaio - Stand Up de Pape
Se existe uma coisa que me prende a atenção é o stand up.
Então, meu amigo, vou te submeter a uma experiência mais traumatizante do que a COP30.
Vou colocar no papel o que muitos colocam no palco.
Depois… coloco no papel mesmo. Que é o que dá pra pagar.
Sou Luciano Veiga Fernandes.
Nordestino — e um dos poucos que não é cearense.
Pobre e cabeçudo.
Já começo devendo carisma.
Nem todos tiveram a sorte do maravilhoso Albani.
Cara, qualquer dia ele vai fazer show no Maracanã.
E vai durar uma semana.
É o tempo dele interagir com a plateia…
Mas vou te falar: eu admiro mesmo é o Diogo.
Não pelas piadas — mas pela memória.
Daquele jeito, naquela idade… e ainda lembra do roteiro!
Aqui pra nós, tô falando dele, mas já li três vezes o início desse texto.
Enfim, antes que eu esqueça de novo o que ia dizer…
Mas eu peço a toda essa imensa plateia de seis pessoas…
Oi, amor. Que bom que você veio.
A compreensão de que fazer rir é difícil.
Dizem os mestres que fácil é fazer chorar.
Pois é. Eu devia ter seguido a dramaturgia.
Sou um brasileiro aposentado — especialista em lágrimas.
Mas ninguém paga R$ 1,99 pra vir num show e chorar.
Pra isso já tem o noticiário… e a CPMI do INSS.
Você pode chorar de graça.
É só ver a primeira-dama dando entrevista.
E o desfile dos bichos na COP30…
Hein? Vocês viram aquilo?
Eu achei desnecessário.
Com a fauna humana que já tinha lá…
Pra que sacrificar o sapo cururu?
E a girafa? Coitada. Totalmente desambientada.
Parecia um penetra em festa de casamento…
Só faltava estar de terno bege.
O melhor foram os índios invadindo.
E o pessoal do outro lado gritando…
“Porrada! Porrada!” — parecia programa de auditório.
E falando em plateia…
Eu sempre tive um medo danado de ir ao teatro.
Não pelo preço — mas por um pavor específico: ser o escolhido.
Aquela hora em que o ator olha pra multidão e diz:
“Você aí!”
Pronto. Eu já começava a suar frio no estacionamento.
E pior, meu amigo: era como se tivesse uma seta em neon piscando sobre minha cabeça.
Eu procurava o assento mais distante do palco.
Pensava: não é possível que ele me encontre aqui.
Imagina…
Isso mesmo. Eles sempre encontravam.
Cheguei ao ponto de deixar de ir ver essas apresentações.
Só me restava o banheiro.
E olha — bem capaz dele entrar lá, microfone em punho:
“E o amigo que tá fingindo que tá cagando... veio de onde?”
Aí eu mudei de lado.
Agora eu infernizo os mais nervosos...
“Você aí, meu amigo de camisa lilás, que tá disfarçando olhando pra trás...
É você mesmo.
Não adianta se fingir de surdo…”
A vida é assim.
Quando a gente menos espera, tudo muda.
Eu, por exemplo, já tive fase de Neymar.
Achava que todo mundo ia me passar a bola...
Hoje, se alguém me passa uma bola, eu já acho que vai pedir Pix depois.
Tem alguém na plateia que veio de Londres?
Oi, tio Smith!
E de Teresina?
Alô, tem alguém?
Teresinha, não — Teresina.
Tem?
Não, o bilheteiro não vale.
E pra encerrar…
Quem quiser tirar foto comigo, tô dividindo uma brotinho de calabresa.
Não, mamãe…
Você não conta.
Valeu, minha gente.
A Kombi sai daqui a quinze minutos.