Humor, ironia
Meus amigos queridos, acho que todos que estão me dando a honra de ler essa maravilhosa crônica tiveram, têm ou terão uma — com licença da má palavra — sogra.
Embora ela seja um ser de 1º grau em linha reta por afinidade, muitas vezes se acha uma mãe ou, na maioria das vezes, madrasta. Claro que ela teve sua importância: colocou no mundo o meu amor e, por isso, se apossou do status de deusa suprema da interferência.
Contudo, a minha experiência me mostra que existem dois tipos de sogra: a boa e a ruim.
A boa é aquela que, você morando em Natal, no Nordeste do Brasil, ela reside em Pelotas, no Rio Grande do Sul. A distância é nossa aliada. Só fala com ela em datas comemorativas e, mesmo assim, não consigo demonstrar nenhum apreço.
E a ruim é aquela que mora nas proximidades do seu lar. Aliás, lar que está sempre invadido pela presença dela ou sendo ameaçado, tal qual a Marinha dos EUA na costa venezuelana.
Você, deitado no sofá, quando menos espera, ela adentra sua casa com um pudim de leite, mesmo sabendo que sua diabetes está nas alturas. E ainda sai resmungando: “Tanta gente distinta, e minha filha escolhe um zé-ruela desses... sei não!”
Ela está presente em tudo: qualquer churrasco, almoço, aniversário, missa... Lá está a bonita, com a mesma régua que te mediu há anos. Fazendo uma retrospectiva, vai ver que a única festa que ela não participou foi a confraternização de final de ano da empresa.
E o almoço de domingo, hein? Aquele ritual sem fim que vai se prolongando até ela ter certeza de que você já perdeu o primeiro tempo do jogo do seu time de coração. Então, é servido um café já adoçado — como o golpe final — após a cocadinha mole que sua vista finge não ver.
Mas ela não se dá por vencida. Uma tupperware é abarrotada da guloseima calórica e entregue com um sorriso de canto de boca, como se fosse o último adeus, e em seguida o tradicional lembrete: “Vai e volta.” Você já está com três depósitos: a que foi com quindim, banoffee e brigadeirão.
Sabe, caro leitor, eu acho que ela colocou uma baba eletrônica pra me vigiar. Eu abro uma Heineken e a mensagem chega:
— “Já vai beber, pinguço?”
Eu deixei de abrir as mensagens dela. Não abra mais, por hipótese nenhuma. A última que eu li foi até animadora:
— “Estou passando mal.”
E eu respondi:
— “O ferro deve estar frio. Esquente mais um pouco.”
E desliguei o celular.
Claro que o nosso relacionamento nunca foi amigável, mas foi suportável — até o Halloween passado, quando coloquei nas redes sociais a foto dela com a legenda:
“Precisando de uma bruxa para animar seu Halloween? Fale com Ilza pelo celular ...... ou pelo e-mail ......”
Acho que ela não gostou muito e mudou para Pelotas. Graças a Deus. Agora, ela deve estar infernizando a vida do Otávio, seu outro genro.