Humor, ironia
Adeus, Gorgonzola
Hoje fiz uma constatação que nunca imaginei fazer. Calma, amigo leitor — não é nada que salve o país das sanções nem que melhore a popularidade do governo. É algo mais grave: percebi que não tem mais happy hour nas sextas-feiras aqui em casa.
Cadê aquela cerveja gelada, o patê, os queijos, os petiscos e, claro, a música das boas (nada de forró, sofrência e correlatos)? Sumiram. Evaporaram junto com a animação de mais uma semana vencida.
Acho que isso acontece naturalmente. A vida vai levando a gente para a mesmice e, quando menos esperamos — babau! — o happy hour se aposenta.
Você, estimado leitor, pode até pensar que eu mudei a programação com minha mulher. Ledo engano. Não houve substituição por algo à altura, tipo um fondue romântico ou um vinho sob a luz de velas. O que temos agora é o glorioso ritual de sentar no sofá e ficar manejando o controle remoto até o YouTube me recomendar vídeos que eu já vi três vezes. E o pior — eu assistir novamente.
E, olha, não é a mesma coisa que o meu gorgonzola.
Posso até dizer que nossa rotina de sexta se parece com a de um asilo moderno: começa com o controle na mão e termina com um cochilo de boca aberta. Estou vendo a hora de começar a babar pelo canto da boca — e, sinceramente, acho que nem vou me incomodar.
O mais assustador é que estou ciente disso tudo e aceitando, sem gostar, mas aceitando. Como se fosse um curso natural da vida adulta: a aposentadoria das pequenas alegrias e o afastamento dos prazeres etílicos.
Ainda assim, se alguém me aparecer com uma cerveja trincando e uma tábua de queijos, prometo que volto à ativa. E quem não voltaria? Zero oitocentos, até tia Alina.
Afinal, ninguém envelhece de verdade enquanto ainda sonha com o sabor — e o cheiro — do gorgonzola.