Humor, ironia
Meu amigo querido, estive pensando sobre a minha velhice. Quando falo velhice, não estou me referindo a essa baboseira de “melhor idade”. Estou falando de velhinho, daqueles que passam cinco minutos somente para levantar um braço. Entendeu, Pedro Bó (grande Chico Anísio).
Então vamos lá. Começando por dentro de casa: a samambaia passa a ter prioridade nos raios solares.
— Luciano, você não está vendo que está atrapalhando o banho de sol da planta? Sente-se em outro lugar. Não, aí não. Essa é a cadeira da Malu.
E lá vou eu, procurando outro assento, pois a cachorra tem prioridade.
Contudo, nos últimos dias, tenho me surpreendido com o quanto nós, os velhinhos aposentados, estamos nos tornando importantes. Até uma quadrilha de ladrões foi formada somente para nos roubar. É ou não é um destaque? Correios, Petrobras e... Velhinho.
E o que eu adorei foi ver que, de uma hora para outra, passamos a ser queridos por todos. Os senadores e deputados vão à tribuna e nos chamam de “nossos velhinhos”. Passamos a ser propriedade de alguém — pelo menos até as eleições.
Bom, fiquei todo alegre. Pensei até em tacar óleo quente na samambaia e mandar para alguns desses políticos meus boletos atrasados — como eu sou de vocês, vão pagando esses aí que depois mando mais.
Também estou me tornando um expert em fingir que não escuto. Todos aqui de casa não fazem ideia de que eu sei que sou chamado de Vovô Fura Fila. Basta terem que ir ao supermercado e lá vem o convite:
— Vamos dar uma voltinha no supermercado? Vamos?
E lá do quarto escuto:
— Troque a camisa do Fura Fila. Está suja de papa!
E nem era papa — era cocô do papagaio Ari, pois a única cadeira disponibilizada à minha pessoa fica embaixo da gaiola dele.
No supermercado, não me deixam nem passear pelos corredores. E com razão: a velocidade que eu desempenho vai causar engarrafamento. Então me colocam sentado em frente a uma imensa seção de preservativos.
Agora me diga, meu prezado, é ou não é uma tortura? Olho para os produtos, sei o que é, mas não sei como usar. Forço a memória e o único feedback que vem é: “saquinhos para sacolé”.
O tempo vai passando e logo o Vovô Fura Fila vai perder sua importância — igual a eleitor depois de votar.
Agora só resta voltar para casa, jantar papa novamente e pedir aos céus que o Ari não esteja com diarreia. Detesto papa, papagaio e samambaia.
Será que algum político amante de velhinhos poderia me adotar? Hein