Humor, ironia
Meu amigo, vá se ajeitando aí no sofá que eu lembrei de uma ótima pra te contar. Acho que a melhor palavra é “revelar”.
No tempo em que as entrevistas de emprego ainda usavam a pergunta — se você fosse um bicho, qual seria? — como algo inovador, lá estávamos uns três candidatos e eu, em uma sala de espera, no aguardo da última etapa do processo seletivo.
Quando meu lindo e marcante nome foi chamado, me levantei e dirigi-me à sala, deixando um rastro do mais legítimo Calvin Clair, para desespero da turma do Hemodê.
A entrevista ia sendo levada normalmente até surgir uma pergunta que, para mim, era nova:
— Qual livro você leu e quando?
Eu pensei: se eu falar que foi a biografia da Rita Cadilac, vou ser desclassificado na hora. Então tentei unir o útil ao agradável:
— Atualmente estou lendo as apostilas de gestão financeira. O meu MBA me toma muito tempo e aproveito minhas horas vagas para reforçar e atualizar meus conhecimentos.
Menti, pois a última coisa que eu tinha lido foi a bula do meu remédio, pra ver se tinha contraindicação.
Quando chegou na pergunta do bicho, no lugar de falar os mesmos — como leão, gato, cavalo ou cachorro — fui no lagarto. Embora me tenha vindo a vontade de falar... bicho-de-pé.
— Lagarto? — perguntou a jovem do RH.
— Sim, ele se adapta a qualquer situação. E uma coisa que é normal existir nas empresas são as correções de rota, o ajustamento de processos.
— Como você se vê daqui a 10 anos?
— No espelho. E espero que feliz por ter feito a escolha certa.
Aí veio a enxurrada de perguntas elaboradas pra gente mentir. E eu pergunto a você, meu leitor: será que o pessoal da seleção acredita mesmo nessas respostas?
Será que, se eu responder que vou vestir a camisa da empresa, eles vão cair nessa? Olha, eu não visto a camisa nem do meu Fluminense, vou vestir da ArcelorMittal ou das Casas Bahia?
A confiante entrevistadora começa a murchar quando vai falar sobre o salário. Eram tantas perguntas querendo saber se eu podia dar minha vida pela empresa, mas na hora do “faz-me-rir” é uma proposta ridícula.
Só me arrependo por não ter respondido que o animal que eu queria ser era um gambá, que não ia vestir porra nenhuma de camisa, pois ia trabalhar nu da cintura pra cima, e que, na verdade, o último livro que eu li foi Como eliminar o seu chefe.