Humor, ironia
O Grito.
Muitas coisas já foram resolvidas no grito. Veja a nossa independência: se não fosse o grito do Pedro, nós, os Manés, ainda seríamos colônia das terras além Tejo.
O regente deve ter pensado: qual impacto teriam suas palavras se, montado no cavalo, ele apenas falasse para um ordenança?
— Oh… Joaquim, me traz uma pena e um papel.
Como seria estampado aquele lindo quadro do Grito do Ipiranga? Você, já pensou na simplicidade da cena? Apenas o Pedrinho escrevendo, montado a cavalo, e só. Sem desbanhar espadas, sem saudações heroicas. Olha, acho que nem Pedro Américo perderia seu tempo e tintas na tela Independência ou Morte.
Mas a utilização do instituto do grito continua até nossos dias. Quem não ouviu falar do Grito dos Excluídos, que mesmo sem fazer parte de nada ainda tem força pra gritar? Pensando bem, deve ser um gritinho abafado, sem presença. Na verdade, um quase sussurro.
E o Grito da Terra Brasil, organizado pela CONTAG, aquela que está envolvida no escândalo estridente do INSS e que agora não sabe nem falar.
Eu fico até com inveja desse pessoal que grita. Juro, meu amigo leitor, se aqui em casa eu me meter a besta e der um gritinho, posso até ir para a solitária igual ao Filipe.
Pois bem, o grito hoje está em todos os lugares: no “O Senhor me Respeite”, no “Baixe a Bola”, até naquela pressão no futebol quando o árbitro marca pênalti. Os jogadores gritam sob um fundo musical, vindo da arquibancada, elogiando a senhora Mãe do profissional do apito.
Até quem você jurava não gritar — grita.
— Sabe, mamãe, a Helena é um doce de pessoa. Nunca levanta a voz… um amor.
Deixa o rapaz casar-se pra ver quem é a Heleninha e desfazer aquela imagem angelical para a de uma guarda de Auschwitz.
O grito é tão surpreendente, intimidador que já tem até um ditado popular: por falta de um grito se perde uma boiada.
Tá vendo, nobre e privilegiado leitor do Ou Vai Ou a Cerca Cai, até a vaca e o poderoso touro têm medo de grito. A mimosa fica tão deprimida que a produção de leite pode até cair. Não sei se por questão psicológica ou por mera vingança. Já o touro, com aqueles vistosos chifres, já está acostumado ao ridículo.
Quem primeiro registrou a importância do grito foi o norueguês Edvard Munch, que fez não um, mas quatro quadros do Grito. O que me levou à conclusão de que o mesmo era casado e tinha amantes.
Bem, meus amigos, cada um tem o grito que merece. E eu vou ficando por aqui, antes de tomar minha primeira dose de grito do dia.
E você, já tomou a sua?