Humor, ironia
Enquanto Houver Recanto das Letras e Empadão
Cheguei. Tenho um caso sério com a escrita — e até que está durando um tempinho.
E não podia ser diferente, pois tela branca é como papel: aceita qualquer coisa.
Sendo assim, ser previamente censurado (“cala-te, boca”) e ridicularizado com frases motivacionais pra mim já é normal.
— Lá vem ele com suas merdas.
— Outra vez, Luciano. Dá uma folga, homem de Deus.
E eu aqui, persistente, tentando vencer pelo cansaço e servindo até de case de resiliência.
Mas, amigo, pode acreditar: eu tentei até o jogo de damas ou gamão.
Entretanto, não tenho parceiro disponível.
Na verdade, não tenho parceiro — seja disponível ou indisponível.
Então vou ter que encarar um quebra-cabeça de 12 mil peças, mesmo sabendo que na primeira centena já abandono essa brincadeirinha.
Cheguei ao ponto de ter como distração, ao caminhar, sair tirando a prova dos nove das antigas placas de carro que vejo.
Placa 9334, noves fora 1, e aí vou andando e me distraindo... até a primeira topada me fazer voltar à realidade.
Se quando eu trabalhava torcia para o tempo passar rápido, agora chego a implorar para que ele tenha um desempenho semelhante ao meu — quase parando.
O amigo leitor não imagina o que é ficar feliz ao saber que é o dia de fazer um empadão.
Compreendeu o drama, hein?
Viu o que pode te esperar na “melhor idade”?
Acho que, se não tivesse essa habilidade culinária, já teriam me dado um caderno e uma caneta e me mandado sentar embaixo da mangueira até a hora do jantar.
E eu, que procuro agradecer (do meu jeito) por tudo, ainda fico grato por não terem me mandado sentar embaixo de uma jaqueira.
Mas tudo bem — enquanto houver o Recanto das Letras e empadão, vou me virando.