Humor, ironia
O Carro da Crônica
Meu amigo, eu pensava que era difícil escrever. Mas não é. O difícil é fazer alguém ler. Embora, para mim, não seja tão simples escrever — não por faltar ideias, mas por faltar concentração.
E o motivo eu vou te dizer: moro em uma casa de esquina. Exatamente isso. O meu logradouro fica em um cruzamento que, até pouco tempo, era tranquilo. Mas eu acho que descobriram que eu moro aqui e resolveram incluir um city tour pela vizinhança.
Veja bem: me preparo todo bonitão, até perfume eu coloco, acreditando que será o dia de fazer a crônica mais supimpa da história da humanidade. Entretanto, logo na segunda linha da minha escrita, eis que surge, de repente, ele — o carro do gás.
— Gás! Olhe o carro do gás passando aqui na sua rua! Gáááááás...
Isso, parado aqui na esquina. Contudo, essa frase fica ecoando até o final da rua e, depois, permanece na minha cabeça até surgir um novo acontecimento. E surge, mais rápido do que você pode imaginar:
— Super promoção de frutas e verduras no Assaí...!
Não para nisso. Ele vai citar todas as frutas e verduras e os seus preços. Quando acaba e você pensa que vai respirar, ele começa a falar quais cartões de crédito aceita e em quantas vezes divide.
Pronto. Agora eu fico querendo saber se comprei banana mais caro ou mais barato do que a anunciada. Recomposto do cansaço mental, vou tomar água e, na volta, arrasto uma banana inflacionada como se quisesse depositar nela toda a minha frustração pelo péssimo negócio.
Sento, olho para o relógio e vejo que ainda tenho 45 minutos antes do carro da água mineral — o próximo antes de tantos outros que virão. Beleza, vou retomar minha crônica. Penso eu, na minha santa inocência.
A campainha toca.
— Bom dia, o senhor quer ouvir a palavra?
E eu respondo: ouvir, ouvir mesmo, não. O que eu quero é escrever as palavras. Bom dia e passe bem.
Volto à minha tarefa e, como era esperado, ele chega:
— Água mineral! Olhe a água mineral!
E silêncio.
O carro quebra e logo chega o socorro para dar uma chupeta. Tudo regado a muita conversa e risadas.
Então resolvi radicalizar. Ponho os fones de ouvido da minha filha e, à medida que o barulho vai aumentando, eu vou dando pressão na música até bater uma dor de cabeça que parecia a badalada de um sino.
Então eu paro, respiro fundo e resolvo dar um tempo — mesmo sabendo que ainda faltam o carro do ovo, do bolo e a moto do crepe. A motoca vem anunciando o crepe nas vozes do Silvio Santos, do Scooby-Doo e dos Flinstones.
E o dia encerra com o tradicional:
— Olhe a pamonha! Pamooooonha! Tem doce e salgada! Pamoooonha!
Resultado: o dia passou, e o que eu tenho pra apresentar pra vocês é apenas esse registro que não vai lhes levar a canto nenhum — mesmo porque não é ônibus.
Porém, planejo fazer o “carro da crônica” e parar, estrategicamente, nas proximidades da casa de cada um dos motoristas desses carros de anúncio — e começar a ler as minhas 148 crônicas.
A vingança é um prato que se come frio — mas com muito barulho.