Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos

Manual Prático para Evitar Gente

Pronto. Um tema que me veio à cabeça e sobre o qual posso falar com conhecimento de causa.

Meu leitor querido, você pode até se manifestar afirmando sua repulsa:
— Que coisa horrível, Luciano. Até parece que você vive na idade da pedra!

E eu te afirmo que estou à vontade para desenvolver esse tema, pois conheço os dois lados da história: evitar e procurar gente para, simplesmente, trocar algumas palavras.

Entretanto, não se iluda, meu fã de carteirinha, achando que é uma busca fácil. Posso lhe assegurar que até pode ser — caso você aceite falar sobre BBB, novela, A Fazenda, programa do Ratinho ou enveredar sobre a coqueluche do momento: Trump x Lula x Bolsonaro.

Nesses casos, não faltam especialistas de plantão com informações quentinhas, diretamente da fila da lotérica.

Então, divido minha performance em “antes” e “após” os meus 50 anos.

Antes dos 50, eu era capaz de mudar de calçada para não perder tempo tendo que falar com alguém. Achava que já tinha gente demais no meu círculo de amizade. Mal sabia eu que, depois dos 50, até com cachorro eu iria falar.

Um dia desses, parei e troquei umas palavras de carinho com um cavalo que puxava uma carroça. Ele olhou pra mim e, juro, acho que disse:
“Você foi o único colega que falou comigo. Os outros mudaram de direção.”

E vou por aí, falando com tudo. Tem a Lilica, de 12 anos, uma caramelo super-agradável — uma joia de ser. Parece que nos conhecemos há anos. Ela também deve ser aposentada.

Então pergunto: por que eu mudava de calçada? Simples: o cavalo e a Lilica têm prazer em falar comigo. É um afeto verdadeiro. Já os transeuntes das calçadas... bem, esses são capazes de tudo.

Parar em um semáforo (ou sinal) ao lado de um conhecido e ter que manter um diálogo idiota? Nunca. Jamais. Parava atrás e, no máximo, uma buzinadinha discreta — e só.

Carona? Nem pensar. Imagina ficar em um ambiente fechado tendo que manter uma conversa sem propósito.

Certa vez fui cortar o cabelo e o cabeleireiro famoso aqui de Natal pediu uma carona até a concessionária, porque o carro dele estava na revisão. Desconversei — e nunca mais cortei o cabelo lá.

No tempo em que eu fumava, era trabalho perdido me pedirem cigarro.
— Você pode me arranjar um cigarro?
— Não, não posso.
Não era o fato em si, mas a conversa que viria depois das primeiras baforadas.

Na época em que tínhamos uma indústria, eu sempre gostava de retornar as ligações — nunca atendia de pronto. Me preparava para o assunto e retornava já próximo do final do expediente, porque funcionário não fica muito além do horário falando coisa sem valor.
— O Sr. Antônio, representante da fábrica tal, ligou. Eu falei que você retornaria.
— Ótimo, obrigado. Retorne às 11h50.

Antônio, faminto, não ia demorar a aceitar aumentar o desconto de 5% para 6,5%. E ainda me poupava das conversas sobre temperatura, governo, futebol e feriadão.

Em fila de banco, eu era craque. Quando começava a se formar um grupinho pra falar mal de alguma coisa, eu ficava de lado ou de costas. Duro, tipo estátua. Nem piscava.

O leitor sabe quantos amigos eu fiz no tempo de Colégio Marista? Zero. Isso mesmo, zero.
E na faculdade? Zero também.
Na pós? Zero de novo.
Nos meus trabalhos: Vivo — zero. Abreu Imóveis — zero. Tertuliano Rêgo — zero. Universidade Potiguar — zero.

Você vai dizer: não é possível que foi tudo zero.
E não foi. No Café São Luiz, foi 1. E na Cafeteria do São Luiz, voltou tudo ao normal: zero novamente.

Aquela música “Amigo é coisa pra se guardar...” — no meu caso, o peito é um vasto salão de festas: enorme, vazio, porém ventilado e sempre limpo.

Bom, agora, depois dos 50 — e principalmente depois da aposentadoria — tudo mudou. Sou um ser sociável. Falso, mas sociável.

Sou capaz de mudar de lado na rua pra te cumprimentar e, se você mudar de lado também, ainda dou um grito e um aceno de mão.

Passei a adorar fila. Pode ser na padaria, lotérica, açougue — lá estou eu, puxando conversa ou desejando bom dia, bom final de semana, bom feriado, feliz Dia dos Pais, das Mães, das Vovós...

E, se tiver alguém com cachorro na coleira, ainda pergunto o sexo, o nome e a idade — tudo isso só pra ter a oportunidade de falar da nossa Julieta e prolongar o bate-papo.

Aniversário, que eu não aguentava ir, passei a adorar. Porque, entre um salgado e outro até o “Parabéns”, existe uma gama imensa de pessoas prontas pra conversar — por vergonha de estar chegando ou por pura caridade.

Você pode me perguntar qual das minhas duas facetas eu acho melhor. E eu te direi, meu AMIGO:

Com certeza, o meio-termo seria o ideal. Nem evitando contato, nem falando com cachorro (e agora com cavalo também).

É que agora eu tenho tempo pra observar a beleza, me compadecer com os mais necessitados e temer a prestação de contas por ter negado tanta carona.

Minha sorte é que hoje me comunico com todos. Imagina eu chegando no céu e São Pedro perguntando:
— Nome de alguns amigos?
E eu respondendo:
— A caramelo Lilica, minha pet Juju e um cavalo que não sei o nome.

 

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 08/10/2025
Alterado em 09/10/2025
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