Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos

Meu gato Theobaldo é mais produtivo que eu

Desde que me aposentei, minha vida virou um mar — não de rosas, mas um mar morto. O não fazer nada me levou a procurar ocupações absurdas e hilárias, sempre com o direito de parar quando bem entendesse.

Veja, meu amigo leitor: se você estiver no trampo, esse é um direito de que nunca vai poder se beneficiar. A não ser que queira forçar uma justa causa.

Dentre tantas tentativas de conseguir um extra financeiro, comecei respondendo pesquisas. Era uma luta para enxergar as letrinhas miúdas que meus óculos vencidos já não conseguiam decifrar. Depois vinham perguntas e respostas tão longas que uma novela mexicana parecia um comercial de trinta segundos.

E lá estava eu, celular na mão, ajustando os óculos no nariz, à procura de um enquadramento melhor e... pimba! Do nada, depois de responder quase todas as perguntas sobre amaciante de roupas — sim, eu disse que lavava as roupas, afinal, uma mentirinha boba dessas não faz mal —, vinha uma frase solene me informando que o meu perfil não servia para a pesquisa.

Agora, amigo e amiga, ponham-se no meu lugar: se eu não sirvo como lavadeira, vou servir pra quê, hein? Me diga!

Mas continuei, na esperança de que o bendito criador da frase “Ganhe dinheiro respondendo pesquisas” não tivesse usado o mesmo artifício que eu usei ao dizer que lavava roupa.

E lá ficava eu, o dia inteiro catucando o celular. Para resgatar o dinheiro, era preciso atingir uma meta — e eu, na minha santa inocência, achava que de centavo em centavo ia satisfazer a fome do meu cartão de crédito e liquidar a fatura.

Enquanto isso, meu gato Theobaldo fazia questão de cavar um buraco, fazer suas necessidades e cobrir tudo com terra, sempre me olhando de canto, como se dissesse: “Enterre essa ideia, idiota.”

Então tive outra ideia maravilhosa. Dessa vez, não ia precisar de celular, só do Google. Foi aí que aprendi o que era o Google AdSense e comecei a pagar anúncios para o meu site. Não deu em nada. E o Theobaldo? Bem, esse brincava com seu novelo, com um ar de riso, dando a entender que eu também devia começar a cavar um buraco.

Cheguei a um ponto em que não tenho mais o que fazer, a não ser escrever. É bom, porque o Theobaldo pensa que estou trabalhando em home office e não fica mais me encarando.

Entretanto, esqueci que, na escrita, também não posso parar quando quiser. Criei um laço com alguns leitores e, mesmo que apenas um leia minhas crônicas, vou continuar a escrevê-las — por respeito a você, leitor, e ao meu gato Theobaldo, que agora mia pelos quatro cantos dizendo que eu estou trabalhando.

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 07/10/2025
Alterado em 22/10/2025
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