Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
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O SORVETE

Não sei o porquê, mas toda vez que vou tomar um sorvete dou um atestado de velho. Talvez seja por perguntar à atendente se tem o de ameixa ou por dispensar aquela variedade de acessórios que vão da castanha moída — ótima pra quebrar dentes — passando pelas coberturas de sabores diferentes, porém de doçura de fazer qualquer cocada chorar de inveja.

Mas o meu ápice de comprovação de que estou na melhor idade foi pedindo uma casquinha no Bob’s. Veja bem, meu querido e solitário leitor: já com o sorvete na mão, solicitei ao vendedor uma pazinha. Sim, isso mesmo que você leu, uma pazinha plástica.

E lá vou eu, sorvete na mão, pazinha enfiada no mesmo e boca salivando à procura de um local para degustar minha recente aquisição. Falo assim, pois, para um aposentado, qualquer coisa fora do normal é um investimento colossal.

Então percebi que apenas euzinho aqui não estava saboreando o sorvete sem intermediário. Todos estavam fazendo ligação direta: sorvete/boca. E eu com um atravessador — sorvete/pazinha/boca.

Isso é facilmente explicado na psicanálise: o jovem não prevê as possíveis consequências. Se ele sujar a camisa de sorvete... tudo bem. Ninguém vai chamá-lo de jovem da boca mole, tampouco de funcionário do OMO. Agora vá eu sujar minha camisa. “Véio” sem noção, não acerta o buraco da boca, coloque um babador... e os elogios iam chegar até no financeiro: tomando sorvete escondido, hein, “seu” Luciano? É nisso que seu dinheiro vai embora, parece criança gastando com guloseimas...

Agora, o mais importante foi poder apreciar aqueles jovens devorando seus sorvetes enquanto eu, tipo Michelangelo, tentava esculpir em um gelado mármore de Carrara um imaginário Davi.

O tempo passou lentamente e confesso, amigo, que a ansiedade para chegar logo à casquinha me fez acelerar a velocidade da degustação. Embora o tamanho da pá não colaborasse com a empreitada, atrevi-me a abreviar o caminho e, partindo para o sorvete/boca, me senti jovem, poderoso e inconsequente.

Por um breve momento me senti como um aluno gazeando aula, como uma criança furando um bolo, até que aquela inconveniente gota de sorvete registrou na minha camisa meu pecado capital.

Mas, meu amigo, não me apavorei. Os pombos existem pra isso mesmo.
— Amor, cheguei. Vou colocar a camisa no cesto, um pombo achou de fazer cocô logo na minha camisa.

Pronto. Um crime perfeito? Não diria isso. Mas um deslize aceitável.

Agora já tracei meu novo passeio: vou tomar um sorvete de ameixa, mas sem pazinha. No boquete mesmo. Desculpe a má palavra.

 

 

 

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 01/10/2025
Alterado em 01/10/2025
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