Humor, ironia
Definitivamente, só posso estar sancionado pela Magnitsky . Não há outra explicação para a minha morte financeira ter chegado assim, tão devastadora.
Meu querido amigo, esse cronista metido a besta, não sabe por que um nome tão lindo e melodioso como o meu recebe tantos “nãos” das instituições financeiras. Até o meu cartão das Casas Bahia foi cancelado. Imagine, meu prezado, o clima aqui em casa quando minha mulher descobrir que o cartão dela da Renner também foi.
E não para por aí. As ligações de cobrança são constantes. Acho que só falta me ligar o próprio São Judas Tadeu, cobrando a promessa que fiz para o Fluminense ser campeão da Libertadores de 2023.
A moça da empresa de cobrança, a Suênia, já se tornou minha amiga. Chegou até a me convidar para ser padrinho do Yan, seu primeiro filhinho — que, por sinal, é um belo garoto.
O amigo pode até ser cruel comigo, igual ao pessoal dos cartões, e querer que eu pague parcelado, em prestações maiores do que eu ganho. Já implorei, de pés juntos, para que fossem cobrar ao meu sócio... o Careca do INSS.
Isso mesmo: só sendo um sócio para receber dividendos dos meus ridículos — porém muitíssimo bem-vindos — proventos da aposentadoria. Consegui com o suor do meu belo rosto. Eu bem sei que o Carecudo não sabe o que é suor de rosto, nem tampouco o que é belo rosto. Se soubesse, já teria feito uma plástica e um implante.
Minha maior preocupação é que essa lei vá se alastrando igual a impinge. Não vai demorar para a Heineken não querer me vender, com medo de ser sancionada também. Então, eu fico restrito a caipirinha ou batida de jaboticaba. Veja a que ponto cheguei: tive que substituir a minha Coca-Cola Zero por K-suco de groselha.
E a programação da minha Smart TV perdeu o sentido. Eu, com o controle na mão, mudando Globo–SBT–Record–Globo... Não dá. Então decidi vendê-la no OLX e, pasmem, ninguém se aventurou nem a perguntar o preço, com medo de ser sancionado. O jeito foi trocar por dois pneus usados, na borracharia de um conhecido que me implorou para deixá-lo no anonimato.
Mas, se serviu para alguma coisa, essa minha situação me mostrou os verdadeiros amigos. E te afirmo: não tenho nenhum. Até o Antônio, que tem uma banca de pastel na feira, me virou o rosto. Cobrindo os lábios, com medo de uma leitura labial, sussurrou: “Agora, não. Te mando um pastel pelo Sedex.”
O mais humilhante é que se passaram 27 dias e até agora nada de pastel. Também, nem gosto tanto assim de pastel.
Na verdade, minha maior preocupação é saber se, na hora da minha passagem, haverá alguma empresa com coragem de me vender um caixão ou se vou mesmo na minha rede.
Entretanto, ainda resta a esperança de que, na outra vida, os portões estejam abertos para quem mereça entrar. E te afirmo: minhas chances são robustas, pois o porteiro é São Pedro. Mas, se São Judas Tadeu estiver por perto... sei não.