Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos

Domingo do Rico X Domingo do Luciano

Domingo, esse dia maravilhoso de folga do trampo. Para alguns privilegiados, a programação não é tão simples como possa parecer.

Claro que me refiro aos domingos dos ricos, mas a mim e tantos outros que têm como únicas opções de lazer o cochilo após a refeição — diga-se de passagem, refeição essa igual aos dias menos glamourosos — e o futebol, que, se o jogo do seu time for transmitido no canal aberto... beleza; se não for, resta a opção de torcer para ter pancadaria e muita expulsão.

Naturalmente, não estou levando em conta o prazer de passar o domingo todo com aquela bermuda que um dia foi calça jeans e que sua amada alquimista meteu a tesoura, aproveitando ainda as pernas para fazer pano de chão ou paninho para o Bob fazer xixi.

Veja, meu estimadíssimo e solitário leitor, a simplicidade pode ser bucólica, mas é humilhante. Ninguém em condições normais de metabolismo vai gostar de passar um dia enfiado em um modelito repaginado, vendo porcaria na TV e comendo Fandangos. Está claro que não foi por escolha, mas por imposição.

Até que eu tento algo diferente, tipo: comer um suculento bife, pois a picanha evaporou-se e levou junto grande parte dos meus sonhos, deixando apenas a abóbora (jerimum, para nós do “cu do mundo”), o que me dá uma enorme vontade de mandar o maître que sugeriu essa opção de cardápio enfiá-la no seu pequeno orifício conservado no etanol.

Entretanto, em contrapartida, o domingo dos afortunados é bem diferente do meu, do seu e de todos que, diante do Pai Celestial, prometeram seguir os mandamentos, já que a Constituição é mutável.

A dificuldade deles começa com a imensa gama de opções que está disponível:

— Clube. E não é aqueles clubes lotados de povo feio, menino pinotando na piscina, uma veia dançando e a alça do maiô caindo a cada coreografia ao som do Katinguelê, a fumaceira do churrasco de charque e linguiça do tamanho de um pepino no ar e ainda, claro, aquele bêbado metido a brabo puxando briga com o garçom por causa dos 10%.

— Almoço no Copa. Rico chama tudo abreviado. Zuleide é Zu, Copacabana Palace é Copa, escândalo do INSS é... bom, deixa pra lá.

— Passeio de lancha. Periodicamente o rico manda a marina colocar o barco na água. Um investimento de milhões e a última vez que ele usou foi para comemorar os 700 gols do Romário. Mas ele gosta de desfilar para a pobraiada, passando bem pertinho de decepar a orelha de um deles enquanto a Lu, Lucinete, passa protetor solar no rosto, que, de tantas plásticas, não é mais dela.

— Churrasco na chácara dos Góis Monteiro. Aí sim, abundância de picanha de várias nacionalidades — menos cubana, iraniana, venezuelana... Pouquíssimas crianças perturbando os adultos. Não que elas estivessem ausentes, mas os ricos contratam pessoas para entreter os pequenos riquinhos. No ar apenas altas gargalhadas, pois eles riem com vontade. Coisa que ri muito é rico, mas entre nós... qual motivo eles têm para não o fazer? Até quando assaltam aposentados eles riem, quanto mais em uma confraria tão seleta.

Porém, se o rico não quer sair da sua humilde residência, ele traz tudo que tiver vontade para dentro dela. Até o Belo vem dar uma palhinha (alguns ricos têm mau gosto mesmo) para um domingo mais íntimo, como costuma falar... só os mais chegados.

Bem, caro leitor, aí é coisa de 30/70 pessoas. Porque uma coisa que rico tem muito são os “mais chegados”. E eles chegam de várias formas, seja lícita ou ilícita, mas chegam.

E entre bebidas, desfiles de grifes que passam a anos-luz das nossas bermudas de calças jeans, vão tornando os nossos domingos cada vez mais sem graça.

Acho até que esse nome “domingo” deveria passar a ser “primeira-feira”, pois é tudo a mesma coisa.

 

 

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 21/09/2025
Alterado em 21/09/2025
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