Humor, ironia
Ditados para enganar trouxa
Quando estamos em uma situação desfavorável, nos agarramos a qualquer acontecimento que conforta nosso eu.
E você, amigo largadão na sua espreguiçadeira, sabe muito bem do que estou falando. Pois foi você mesmo que se agarrou à frase: “A vida lhe deu um limão, faça uma limonada.”
Agora me diga, pequeno gafanhoto do universo: o que o criador dessa pérola esperava sair de um limão? Um milk-shake é que não vai ser. Contudo, essa frase é adotada como motivacional para o deleite dos coachs.
Eu, carregando anos de experiência vivida, não vou sair por aí satisfeito com um limão na mão, podendo a vida ter me dado morangos — e eu, naturalmente, transformaria em morango do amor.
Outra frase que se tornou um mantra para os derrotados é: “Os últimos serão os primeiros.” Nunquinha que isso vai acontecer. Em um pódio não há lugar para o último, penúltimo e antepenúltimo. Os louros da conquista não caem no derradeiro.
Veja, meu amigo: no caso do naufrágio do Titanic, os sobreviventes foram os que chegaram primeiro nos barcos salva-vidas ou os retardatários? Nesse caso você estaria confortável e falaria:
— Calma, querida, vamos ficar no fim da fila, pois seremos os primeiros a ser resgatados.
Claro que não. E posso provar: houve até tapas e empurrões na tentativa de furar a fila.
Outra maravilha, falada com uma sabedoria digna de uma anta: “O que é do homem o bicho não come.” O leitor ainda acha que eu preciso comentar essa aberração? Vá com uma conversinha dessas para um aposentado que foi roubado no seu benefício. Ou chegue na Venezuela e diga ao Maduro:
— Calma, o que é do homem o bicho não come.
E veja o sopapo que você vai levar no seu escutador de bolero. Posso até lhe afirmar que, se o bicho tiver de barriga cheia, pode até negligenciar... mas vem outro e come. E, se brincar, ainda come o bicho negligente.
Outra colocação que muito me perturba é: “Depois da tempestade vem a bonança.” Santo Pai, eu moro no Nordeste do Brasil. Aqui praticamente não chove. Qual a probabilidade de ter uma tempestade? Me diga.
E no dia que tiver uma tempestade por essas bandas, a bonança será enquanto ela estiver ocorrendo: menino pinotando dentro d’água, mulher lavando roupa, pinguço tomando uma por causa do frio, cachorro uivando com os trovões, beatas orando pensando que é o fim dos tempos, mocinhas chorando por não ter cedido aos encantos do moço da barraca da tapioca, e político prometendo um milheiro de tijolos e telhas para a reconstrução da igreja.
Entendeu o porquê, aqui no Nordeste, isso não vai funcionar?
Pra terminar, vou dizer só mais este, que tenho certeza de que você conhece: “Em time que está ganhando não se mexe.” Concordo em parte. Porém, se alguém se machucar, vai continuar jogando de muletas?
Se no dia do grande clássico, na hora de entrar em campo, aparece assim do nada a mais temível e avassaladora dor de dente... já pensou? Você em campo, com o dente latejando, vendo a hora explodir e levar a banda do seu rosto junto. Tendo que correr, e a cada pisada é como uma marteladazinha no seu querido molar.
E você, um centroavante raiz, tem que subir pra cabecear... nunca, meu amigo. Você implora ao técnico:
— Professor, tá doendo muito, acho que vou desmaiar.
E o técnico:
— Aguenta aí, meu artilheiro, só faltam 35 desse tempo e o outro. Passa logo.
Você não sabe que, se eu mexer no time, ele perde?