Humor, ironia
Careca do INSS, o depoimento que não aconteceu
O Careca do INSS merecia mesmo ser preso.
Assaltar aposentados e depois investir numa réplica da McLaren do Senna é de cair o queixo.
Custava ter comprado uma peruca? Ou feito um implante, tipo o Diogo Portugal?
Pelo menos teria sido útil, e eu ficava em paz sabendo que meu dinheiro financiou algo de bom.
Comenta-se, nas esquinas do Planalto, que ele tentou vender o Fórmula 1 pro Piquet.
O tricampeão não quis nem conversa.
Mas sugeriu que oferecesse ao Mansell: “o único otário pra levar esse elefante branco”.
E não parou na McLaren.
Na garagem, brilhava uma Ferrari vermelha.
O Careca dos velhinhos não tem fidelidade de escuderia: o que importa é que os 27,5% estivessem garantidos.
Confesso: fiquei até satisfeito.
Afinal, uma parte daquela coleção de carros, relógios e obras de arte de gosto duvidoso é minha.
Foi com a minha contribuição de R$ 30 que ele comprou a Ferrari.
Logo, um centímetro da vareta de óleo do motor me pertence por direito.
A expectativa era grande: essa semana ele iria depor na CPMI.
Iria, do verbo não vai mais.
Um documento de Robespierre livrou o sujeito dessa visita ao Congresso.
Um dos poderosos alegou:
— “Todos estão carecas de saber que o careca do INSS já estava preso e não vai poder comparecer. Até a consulta capilar foi desmarcada.”
A CPMI já tinha planejado todas as perguntas.
E conseguimos, em primeira mão, algumas das mais comprometedoras:
— Qual o seu grau de parentesco com o Palhaço Carequinha?
— De quem é a Ferrari na garagem da sua casa?
— A réplica do Fórmula 1 é sua? E as obras de arte?
E já dá pra imaginar a resposta:
— “O Carequinha é primo do amigo do meu sobrinho.”
— “A Ferrari é de um amigo.”
— “A McLaren é do amigo de um amigo do meu amigo.”
— “E as estatuetas eram da finada Zuleide, minha sogra.”
As perguntas do pessoal do governo viriam nesse tom:
— “Dr. Careca do INSS, o Bolsonaro alguma vez pediu pra dar uma voltinha na Ferrari ou na McLaren do Senna?”
— “Por que o senhor não fechou essa comissão em 28%? Foi ordem do Bolsonaro?”
Nesse momento, alguém da oposição retruca:
— “Presidente, o depoente está careca de saber que esta comissão não vai aceitar a desculpa de que agora ele é piloto de testes da McLaren.
Até porque, sejamos francos: o depoente não cabe no cockpit de um carro de corrida.
Com muito esforço, caberia na boleia de uma Scania.”
A situação intervém:
— “Pela ordem, Sr. Presidente.”
— “Pois não, nobre colega.”
— “Posso ir à casinha?”
Pode sim, mas lave as mãos.
Agora passo a palavra para o líder das minorias.
Deputado Minoria, vossa excelência tem 30 segundos...
Pronto, seu tempo acabou.
Não insista, Minoria, ou abro votação e o colega vai perder. Afinal, não tem maioria.
O relator pergunta:
— “A título de esclarecimento: o Senhor Careca do INSS tem habilitação para guiar em via pública?”
A situação protesta:
— “O senhor relator está constrangendo o Careca. Como se não bastasse a falta de cabelo, quer imputar falta de habilidade!
Primeiro chamou o careca de careca, agora quer desabilitar o careca só porque ele tem uma Ferrarizinha e um carro velho que o finado Ayrton pilotou — e que o coitado do deficiente capilar nem teve condições de comprar uma capota.”
Com base nisso, eu pergunto:
— “Depoente careca, confirme: essa McLaren, réplica da do Senna, eu tenho aqui uma ordem de serviço da oficina Supapo — a mesma que fez os pedalinhos do sítio de Atibaia. O senhor confirma que iria utilizá-la alugando pras crianças tirarem fotos e levantar uma grana pra comprar uma peruca igual a do Ivon Cury?”
E o depoente, com a voz trêmula, fala:
— “Sim, o projeto era colocar a McLaren no parque. As crianças tiravam foto e ainda ganhavam uma foto do Michael Jackson.”
A oposição aperta:
— “Depoente, como o senhor chegou a essa porcentagem de 27,5%?”
— “Comecei com 2%. Mas cada vez vinha mais gente colaborar... foi pra 12%, depois 15%, 20% e agora 27,5%. Mas digo: pra gente ter um padrão de vida como o dos senhores devia ficar na faixa de 36%.”
E continuou:
— “Não é mole acordar pela manhã e não poder passar um pente no cabelo. Ser conhecido nacionalmente como Careca do INSS. Já imaginaram o trauma?
Me lembram, constantemente, da notável falta de cabelo. E ainda me apresentam em rede nacional como se fosse a mulher barbada de um circo de segunda categoria.”
O redator pergunta:
— “Então o senhor se sente uma vítima da sociedade?”
— “Claro que sim. Quando eu era jovem, peguei um celular pra tomar uma cervejinha e fui trucidado por policiais. Eles chegaram a me chamar de... cabeça de pirulito.”
O presidente pede ordem:
— “Senhores, vamos respeitar o careca do pirulito... digo, INSS. O fato dele ter uma Ferrari de 4 milhões não quer dizer nada. O Rinaldo, nosso segurança, tem um Fiat Mareia. Comprou com o suor do rosto.
Naturalmente, o suor do sem telha... digo, careca do INSS é bem maior. Não é fácil levar milhões e esconder da mulher e da sogra.”
A oposição pede a prisão:
— “Presidente, acho que está na hora de prender o careca.”
— “Mas ele já está preso.”
— “Então o senhor solta e depois prende.”
O presidente pergunta:
— “O senhor já está satisfeito com o interrogatório?”
— “Quem, eu?”
— “Sim, caro colega.”
— “Satisfeito, satisfeito mesmo... não. Mas tenho um compromisso com a base. Marquei minha manicure pras 17 horas.”
E o presidente decreta:
— “Vamos fazer uma pausa rápida. Só o tempo de soltar uma bufa e voltamos a seguir.”