Humor, ironia
Dia do Cliente no Cabaré da Salete
O cabaré da Madame Salete era um ambiente festivo, pelo menos para os clientes. Salete conduzia sua Casa de Encontros Íntimos, como costumava chamar seu bordel, com um profissionalismo capaz de dar inveja a muitos empreendedores.
Para o amigo leitor ter uma ideia, em um lugar visível da parede da sala havia um quadro com a funcionária do mês. A foto de Shirley, vinda do Recife, foi destaque em dezembro, o que lhe valeu a homenagem: um gorro do bom velhinho na cabeça e mais nada.
Para movimentar a casa, Salete usava da criatividade, fazendo até promoções-relâmpago, do tipo: “pague uma e leve duas”, e a “quinta da melhor idade”, em que bastava mostrar a identidade para servir-se à vontade.
Sua inventividade também criou a festa do cabide e o retiro de carnaval, que hospedava sua clientela durante o período momesco, inclusive servindo a tradicional feijoada. Havia ainda o bloquinho dos anjos, onde todos desfilavam pela casa apenas com um par de asas nas costas e um apito.
A movimentação era tamanha que a rua onde ficava o estabelecimento perdeu o garboso nome de Rua da Independência para “Rua de Dona Salete”. O projeto foi sugerido pelo vereador Tonico, frequentador e portador da carteira de sócio proprietário nº 003, aceito por todos, menos pelas vereadoras Izolda e Dirce de Agenor.
Com o passar dos anos, a fama do negócio de Madame Salete ultrapassou fronteiras e chegou até a capital. Como retaliação ao consolidado negócio, denúncias foram feitas a diversos órgãos do governo: Ministério do Trabalho, da Saúde e da Segurança Ambiental, pois descobriram que as asas dos anjos eram feitas de penas de pombo.
Um belo dia, a casa lotada — aquele ambiente saudável e, ouso dizer, familiar — recebeu a comitiva da capital para uma fiscalização.
Salete, esperta e vivida nesse “salutar” ambiente, convocou todas as meninas. Até as que estavam em atividade laboral foram chamadas para sentar-se em frente à comitiva do jeito que estavam na labuta.
Os três representantes da capital, de frente para doze meninas que cruzavam e descruzavam as pernas, vestidas com tiaras na cabeça e botas brancas do tipo Xuxa, faziam caras e bocas a cada resposta.
Neide, ganhadora da funcionária do mês de março, pede a palavra:
— Aqui é mesmo como uma família.
— Estou nua por opção, vendo meu corpo para não ter que vender minha alma.
— Meu mundo é isso aqui: não há política, não há corrupção, não há injustiça.
— É mais limpo e verdadeiro do que os salões que vocês frequentam.