Humor, ironia
Cheguei, e vou logo avisando: esta crônica, além de carregar os ingredientes típicos da minha escrita — humor, ironia e sarcasmo — também traz um sólido e embasado registro da higiene pessoal no nosso querido Brasil do tempo em que ainda era colônia (será que deixou de ser?).
A vida na época colonial não era nenhum mar de rosas. Vamos por partes.
A cozinha, esse espaço tão importante das casas, era feita de barro batido. Isso mesmo, meu amigo: um chão de barro, muitas vezes adornado por poças d’água que ornamentavam o ambiente. Era um lugar grande, habitado não só de gente. Ali também conviviam galinhas, guinés, patos, porcos, cachorros, gatos, pombos e — claro — uma multidão de moscas. Para coroar a cena, cocô à vontade: mole, duro, em bolinhas... variedade não faltava.
As carnes, sempre cobertas de moscas, iam para o fogo em panelas de barro mal lavadas, enxaguadas em água imunda.
Banho era raridade. Muitos acreditavam que uma camada de sujeira funcionava como uma espécie de protetor natural contra doenças. Agora imagine: sob o sol do Nordeste, dia após dia sem banho, sem lavar o principal, o secundário nem tampouco as adjacências. E pasme — não causava espanto algum, pois todos já estavam acostumados à fragrância de Lamê D’Esgotê.
No quintal, uma grande tina (não, não era a Turner) acumulava todo tipo de excremento humano, somado a restos de comida e tudo aquilo que deveria ir para o esgoto. Um escravo era encarregado da “maravilhosa” tarefa de esvaziá-la. Se a casa ficasse perto da praia, jogava tudo no mar. Caso contrário, despejava na sarjeta, deixando a rua exalar o autêntico aroma de patchouli.
Nos quartos, não podia faltar o penico ou urinol — que, convenhamos, até parece nome de enxaguante bucal. Muitas vezes não eram esvaziados com frequência, e aquele coquetel de xixi e cocô ficava ali, perfumando o ambiente. Para disfarçar, queimavam-se algumas ervas, que afastavam mosquitos e suavizavam o ar com cheiro de lavanda.
E por falar no “ninho dos pombinhos”, dentro de casa o marido era o rei. Sentava-se sozinho à mesa para as refeições. Nada de mulher buzinando no ouvido nem de crianças atrapalhando. A comida era degustada com as mãos e a limpeza, feita na roupa ou em qualquer lugar — menos em guardanapos.
Enquanto o marido se banqueteava sozinho, a mulher e os filhos não tinham o mesmo privilégio. Comiam onde fosse possível, muitas vezes apoiando o prato nas pernas e ficando com as partes menos nobres da refeição. E se as crianças reclamassem que a comida estava quente, a solução era rápida e rasteira — e bota rasteira nisso! A comida era despejada no chão e, ali mesmo, elas comiam.
Ao anoitecer, a esposa fazia a pergunta obrigatória:
— O senhor, meu marido, vai me usar hoje?
E ele, depois de um sonoro pum, respondia:
— Vou, sim. Mas somente a parte de cima.
E você aí pensando que, no dia seguinte, ela acordava manhosa, cantarolando pelos cantos com um largo sorriso... engana-se. Às quatro da manhã já estava no curral, atracada nas tetas de uma vaca, tirando o leite para o marido. Era a verdadeira lei da reciprocidade: à noite lhe fora servido leite, de manhã ela retribuía.
O lixo era empilhado nas ruas, e alguns galhos de árvores eram estrategicamente colocados por perto na brilhante tentativa de disfarçar o odor. A montanha de imundície crescia tanto que acabava servindo como ponto de referência:
— A senhorinha segue em frente e, na terceira pilha de lixo, dobra à direita.
E lá ia a jovem, toda faceira, exalando um “CC” daqueles. Nada, porém, que se comparasse ao aroma coletivo do lixão urbano. Convencida de que acompanhava a moda europeia, esquecia-se de que a revista francesa levava um ano para chegar, mais outro para que o tecido fosse importado e ainda seis meses para a raríssima costureira confeccionar o modelito — que, quando finalmente ficava pronto, já estava completamente fora de moda em Paris.
A vida do homem também não era simples. Tiro por mim: tinha que matar um carneiro para o almoço e... só. O resto, minha digníssima fazia. Eu mesmo ia para a praça, camisa aberta no peito, mangas dobradas e uma generosa mancha de sangue de carneiro anunciando meu “trabalho”.
Bem, meus amigos, hoje estamos civilizados. Levantamos até jarros de flores para ver se há mosquito da dengue, tomamos três banhos por dia com direito a desodorante e perfume. Comemos à mesa com a família e não escolhemos pedaços na refeição.
Não somos perguntados se iremos ou não “usar” alguém, nem tampouco pré-determinamos qual será o setor de oscri onde acontecerão os finalmentes. Mas sejamos honestos: perfume francês ainda não esconde o cheiro do Brasil.