Humor, ironia
O Dia que Itamar Virou Fidel
Chegou a hora de conversar com você, meu amigo e minha amiga, leitores. Então, meus queridos, se cheguem mais um pouco e aproveitem as letras sem moderação.
Todos nós sabemos que o ditador cubano Fidel Castro gostava de um microfone. Ele foi capaz de fazer um discurso de mais de sete horas por ocasião do congresso comunista ocorrido na “sua ilha” em 1986.
Eu achei o máximo. Se ele fosse vivo e eu o encontrasse, teria apenas uma pergunta a fazer: Fidel, me diga... como você conseguiu ficar mais de sete horas sem fazer xixi?
Eu também não sei como a plateia suportou tanto tempo. Tiro por mim, impaciente como sou, daria um crédito de 15 minutos, pois te juro, meu amigo, entre tantas coisas que deixei no caminho da vida, uma delas foi a paciência de escutar bosta.
Lembro que, há anos, tinha um padre aqui em Natal que celebrava uma missa exatamente em 25 minutos. Era o Padre Teobaldo. Começou na Igreja do Bom Jesus das Dores e depois foi para a Igreja São Judas Tadeu, porém levou seus fiéis e lotou também o novo espaço.
Além de rápida, a missa de Padre Teobaldo era divertida. Ele dava aviso do tipo:
— Quando eu estiver no ponto do ônibus e vocês passarem de carro, se não for para parar e me dar uma carona, não precisa buzinar e dar tchauzinho, não.
A missa não tinha conjunto musical nem coreografias que eu vejo em muitas das que frequentava até pouco tempo. Era o Padre, a palavra e o humor. Isso mesmo: Padre Teobaldo conseguia transformar aquele breve momento em algo prazeroso. Sem estardalhaços, ele conseguia levar inúmeros fiéis por onde pregava.
Dias atrás foi o aniversário do meu sogro Itamar. Você pode até falar: Ei, brilhante escritor da era moderna, o que tem a ver uma coisa com a outra? Em... me diga?
Vou te explicar. É que o Itamar quis dar uma de Fidel. Pediu licença aos convidados e, de pé, devidamente trajado de terno, começou a proferir o seu discurso.
Até os primeiros 20 minutos, nós, os convidados, suportamos atentamente. Contudo, quando descambou para uma homenagem ao mosquito — exatamente o que você leu, pois ele viu uma relação entre o Dia Mundial do Mosquito e o dia do seu nascimento —, confesso que, após escutar uma lauda sobre o assunto, já começava a pensar em me desfazer do meu cachorro e adotar um lindo pernilongo.
Eu olhava para ele e o via de barba longa, uniforme militar e quepe. Pensei: Deus, será que ele recebeu o Fidel?
Os convidados que antes acompanhavam suas palavras começaram a olhar o celular; alguns ensaiavam iniciar as palmas — me incluo nessa categoria —, e ele continuava virando página por página do seu pronunciamento.
O início do fim se deu quando ele começou a agradecer a todos que passaram na sua vida. Agora pense: são 84 anos! Imagine o prontuário de óbitos que seria desfilado aos presentes que, a essa altura, corajosamente já abanavam a cabeça em um “não” velado.
Um dos filhos, vendo que ainda tinha umas 38 páginas, achou por bem usar a palavrinha mágica:
— Papai, vamos jantar logo, depois continuamos.
Foi só ele se dirigir para se servir que o discurso sumiu e não voltou mais.
No final da noite, Itamar agradeceu e já convidou para o seu próximo aniversário de 85 anos. Eu, que não podia deixar passar em branco, peço a palavra e solicito que, no de 85 anos, também tenha um maravilhoso discurso como o que nos foi presenteado.
O Itamar não virou Fidel. Ele é um viúvo solitário e deve ter passado dias elaborando e ensaiando sua apresentação. Claro que ele sabia o tamanho do texto, mas como ele preencheria a sua vida tão vazia se não fosse por memórias?
Espero que eu nunca tenha que fazer um discurso sobre a minha vida tão longo, pois, com esse meu jeito, muitos pediriam: conta outra, agora aquela do português... e também a de Toinha de Taperuá.