Humor, ironia
No Brasil não se marca mais a hora — se marca o próximo vexame.
Meu querido leitor, minha querida leitora, acomode-se confortavelmente e compartilhe comigo este momento sublime.
Todos sabemos que, em Manaus, muitos encontros são marcados de acordo com a chuva. Os acontecimentos se dividem em “antes da chuva” e “depois da chuva”. Só que, veja bem, é uma chuva passageira, que costuma se repetir apenas no dia seguinte.
Talvez seja herança dos nossos antepassados, que até dançavam para essa condição atmosférica.
Mas eu pensei — e aí está sempre o perigo —: por que não seguir o exemplo da capital do Amazonas, com um leve ajuste para a realidade nacional? No lugar da chuva, passaríamos a marcar o tempo antes e depois do escândalo.
Assim, a compreensão da linha do tempo ficaria muito mais simples.
Um almoço poderia ser marcado para “logo após o escândalo do meio-dia”. O happy hour, para depois do “escândalo do fim da tarde”.
Isso nos abasteceria de assuntos fresquinhos, mas nos obrigaria a agir rápido na criação de memes, já que logo chegaria o “escândalo do jantar”.
Os planners não trariam mais horas, mas sim um escalonamento de escândalos: começando com “Escândalo 1” e encerrando com “Escândalo 24”. Cada linha teria espaço reservado para comentários: “Escândalo 7 – cuecão recheado de dinheiro”.
Nos noticiários, os âncoras não narrariam fatos. De forma alguma! Colocariam todos os escândalos em um globo e, de olhos vendados, sorteariam dois ou três para preencher a pauta.
E você me pergunta: “Mas e os escândalos que passariam despercebidos?”. Engano seu, meu amigo.
Eles seriam cuidadosamente catalogados e reapresentados em um verdadeiro Vale a Pena Ver de Novo durante as campanhas eleitorais.
E nós, moradores desse circo de horrores, acabaríamos acostumados, como quem se habitua a olhar um simples relógio. Porque já convivemos com escândalos e — pior ainda — aprendemos a gostar ou não deles dependendo do lado em que estamos.
E só esse detalhe já revela um novo escândalo: o da nossa decadência moral. O errado se metamorfoseia conforme os interesses de cada um.
O país, que já foi do futebol e do futuro, agora é, sem dúvida, o país dos Escândalos.