Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
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Textos

Ao meu diário, Cuzão

 

Oi, Cuzão.

 

Andava sumido por aqui. A vida de aposentado é uma correria danada: de manhã não faço nada, à tarde torno a não fazer, e à noite continuo no mesmo ritmo. Confesso que não sei até quando vou ter forças para manter essa maratona tão exaustiva.

 

Sinto falta do escritório. Da agenda cheia de compromissos, das cobranças dos gestores, até mesmo do cansaço do fim do dia. Fazia sentido. Eu me sentia útil. Era apenas um colaborador, mas um colaborador disposto, dedicado, sempre tentando fazer o melhor — ainda que, muitas vezes, sem o merecido reconhecimento.

 

Não é que eu quisesse ser diferente. É que já estive do outro lado. Já fui empregador. Sei o quanto um dono espera lealdade, compromisso e entrega de seus funcionários. Ilude-se achando ter um time unido, fiel, alinhado aos princípios da empresa. No fundo, também sente suas dores.

 

E agora aqui estou, falando com você, meu amigo de celulose. Você é um diário conformado, aposentado como eu, mas sem lembranças da vida “na ativa”. Virou a página sem dor, sem apego, sem emoção. Eu, não. Eu olho para frente e vejo o horizonte limitado, sonhos já aposentados, páginas em branco esperando uma caneta com pouca tinta.

 

Queria ter o seu poder de aceitação. De conformismo. De inércia. Mas me resta a inquietude. E, graças a Deus, ainda existe a esperança. E você, Cuzão.

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 28/08/2025
Alterado em 28/08/2025
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