Humor, ironia
Condomínio Bastilha: Qualquer semelhança com o Congresso é mera coincidência
Crônica de um condomínio onde a baixaria mora ao lado da Excelência.
Como o amigo sabe, pelo menos suponho que sim, o meu blog “Ou Vai Ou a Cerca Cai” não é o primeiro.
Já tive o “Caroço de Manga”, mas não frutificou.
Mantenho o “Nem Todos Calçam 40”, que tem uma pegada mais voltada para a monetização no Google que, aliás, tem monetizado o próprio e descapitalizado este inocente que vos fala.
O nosso Ou Vai Ou a Cerca Cai, como o nome sugere, é mais uma tentativa desesperada de atrair leitor. O nome reflete o material postado: sempre com humor, ironia e essa correlação entre título e crônicas.
Contudo, caro amigo leitor, embora eu divulgue cada texto nas redes sociais, minha escrita, como a de tantos outros, perde para os temas do momento.
Política, embargos, caça a narcotraficante bolivariano e tantos outros assuntos me deixam com enorme desejo de escrever sobre eles.
Porque, ao contrário dos títulos dos meus blogs, que já entregam o conteúdo, na vida nacional é outra conversa. O Congresso Nacional, que é um nome sério, na verdade não é tão sério assim.
O termo “Sua Excelência”, quando dito na tribuna, esconde a vontade gritante do orador de falar “Seu grande…” e aí abrir o vocabulário de “elogios” proibidos pelo decoro.
Também entendemos bem o porquê de certos políticos não abrirem votação de temas tão solicitados.
Deus do céu, será que eles acham que somos tão imbecis de acreditar nas desculpas apresentadas?
Nós ouvimos, entendemos e sabemos muito bem quem é a força oculta que coloca seus pescossinhos na guilhotina.
O poder da informação está sendo usado para derrubar dignidade, comprar silêncio e afundar o país.
E é aí que a comparação surge: o Congresso parece mais é uma assembleia de condomínio.
Em cada luxuosa “casa parlamentar”, uma vida, uma história e, naturalmente, suas regras e normas.
Agora, imagine a reunião desse “condomínio Bastilha”… já pensou a baixaria? Grande parte nem aparece nessas reuniões, mas cobra como se participasse das decisões.
— E o cocô da Fifi, da casa 12 da alameda 121, que sempre encontra o pé do tênis do Dr. Estanislau nas caminhadas matinais? O que faremos? Deportamos a Fifi, bloqueamos tudo da Fifi — seu pratinho, suas bolinhas, sua caminha… ou aproveitamos e estendemos as punições aos familiares dela?
— É interessante, prezado Deoclécio, que o senhor coloque um aviso na academia de que os equipamentos não são propriedade de um grupinho que se apodera deles como se fosse o sofá da casa da puta que os pariu.
— Calma, Almerinda, já estou pensando em fazer uma carta de advertência e, se persistir, vou levar ao conselho de condôminos.
A essa altura, a risada ecoou pelo salão.
Conselho de quê mesmo, Deoclécio? Ele fala como se valesse alguma coisa.
Prezado, não é nada pessoal, mas esse conselho e titica de galinha é a mesma coisa.
Basta sua patroa mandar que você revoga a decisão — e olhe lá se não dissolver o conselho.
— Gente, vamos apaziguar o condomínio. Isso já está indo longe demais. Essa semana o Júnior vestiu uma camisa vermelha para ir ao cinema daqui mesmo e, no caminho, jogaram uma abóbora nele. Pois vejam: Juninho voltou e colocou uma camisa da seleção e, pasmem, quase foi esfaqueado bem ali, próximo à guarita.
E então, fala de maneira enérgica, o síndico Deoclécio:
— Isso vai ser apurado. Os culpados serão entregues às autoridades. Doa a quem doer.
Pronto...
Novamente risos e piadinhas tomaram conta da sala: conta outra, Deoclécio, me engana que eu gosto. Agora conta aquela do papagaio, vai, conta aí!
O jovem Yan, irmão do Enzo, por sua vez, pede que o wifi não seja desligado após as 16 horas.
— Só porque postamos o que pensamos e gostamos de escutar o Malafaia? Papai, digo, Deoclécio, em pleno século XXI não ter o direito de escolha é demais!
E o síndico responde de maneira ameaçadora:
— Mocinho, em casa conversamos.
O aposentado, Sr. Simões, solicita providências sobre a violação das suas correspondências.
— É inaceitável, meu caro Deoclécio, que as minhas cartas sejam censuradas pelo porteiro e espalhada cópias por todo condomínio, tornando minha vida particular estraçalhada e me causando um prejuízo incalculável pela separação de um casamento de mais de 30 anos.
Deoclécio, mais uma vez, tenta amenizar a situação.
— Caro condômino, vamos apurar o caso. Entretanto eu não sei como tal fato ocorreu, pois o porteiro Raimundo é analfabeto funcional... Provavelmente está seguindo ordem de alguém, digamos assim, lunático e completamente fora dos princípios do regimento interno do Condomínio Bastilha.
E assim, a assembleia terminou como começou: uma grande piada.
No fim das contas, meu amigo, basta olhar com atenção para perceber que esse “condomínio de luxo” chamado Bastilha se parece demais com aquele outro prédio do planalto central.