Humor, ironia
Antônio, o Vampiro dos Trópicos.
Não me acho estranho. Talvez só com hábitos pouco convencionais. Peguei essa mania com a
mamãe.
Meu pai? Um cachorrão. Saiu pra comprar cigarros e não voltou. Mamãe dizia que a carrocinha o
pegou.
Sou filho de uma tradicional família da Transilvânia, que migrou para esse lindo país do samba,
futebol e dos pescoços mais variados deste lado do Equador.
Me chamo Antônio Damasceno Neto. Uma homenagem ao meu querido vô Tonho.
Tive uma infância normal: aulas com mamãe, conhecimentos anatômicos e galanteios com o vô.
Confesso que era uma rotina entediante: aulas, tumba, tumba, aulas.
Quando completei minhas 150 primaveras, o voinho e eu tivemos nossa primeira conversa séria
— de vampiro para vampiro.
— Querido neto, nossos antepassados lutaram por séculos contra os Dráculas, até restarmos eu,
sua mãe, o cachorrão do seu pai e você. É uma rivalidade de séculos. E cabe a você honrar nossa
história. Todos os outros murcharam como maracujá por causa das lutas, do alho e do sol.
Meu rapaz, nós podemos tudo. Ou melhor, quase tudo. Alho, sarapatel, carne de sol, estaca de
madeira, cruz e gritos do Malafaia estão completamente fora do nosso alcance.
Receio que meu avô não estava preparado para tantas emoções. Naquela noite, durante um voo
solo, caiu sobre uma plantação de alho e se esvaziou como uma bexiga. Restou apenas o seu
pente flamengo.
Morreu com 943 anos. Levou com ele toda a sabedoria…
Me deixou sua tumba, um par de porta-caninos de ouro e um bom disco do Noel.
Com sua morte, resolvemos mudar para um apartamento. Um espaço menor — e praticamente
dentro de um, digamos assim, mercadinho.
Entretanto, anunciar um imóvel não é fácil. E um profissional local não estaria apto a cumprir tal
missão em um lar tão especial.
Já cogitávamos alugar alguns quartos quando nos lembramos do venerável Eudes, nosso guia
espiritual. Ele fazia toda transação de compra e venda de imóveis pela internet e com sigilo
absoluto.
Enviamos e-mail com detalhes da casa, incluindo fotos das tumbas. Especificamos o tipo de
apartamento que buscávamos: adequado a uma senhora viúva e a um vigoroso rapaz de hábitos
noturnos. Ressaltamos a importância de ser lado sombra e com vista melancólica e insalubre.
Preferência por edifícios silenciosos e com moradores saudáveis e sem vícios mundanos.
Concluída a venda, nos mudamos na mesma noite. Foi uma viagem tranquila — um voo de
quinze minutos. Do alto, já nos aproximando para pousar, ficamos admirados com o tamanho do
condomínio. Devia ter uns treze blocos, cada um com quinze andares. Sei bem, pois dei um voo
de reconhecimento e já observei que as janelas ficavam abertas.
O que o condomínio tinha de grande, nosso apartamento tinha de pequeno. Nossa primeira
providência foi fechar todas as cortinas e instalar as nossas tumbas. A da mamãe, por ser um
modelo solteirão, coube um pouco apertada, porém a minha, por ser uma king size, não houve
outra maneira de instalá-la senão na vertical. Era como se eu estivesse entrando no guarda-roupa
toda vez que fosse dormir.
De início, achamos por bem não manter contato jugular com os condôminos. Havia uma
variedade de pets de alta qualidade, que deveriam ser alimentados com proteínas de primeira.
Dias depois, decidimos que era hora de mudar nosso cardápio e partir para os humanos.
O porteiro Nonato, com 68 anos, cochilava enquanto uma velha televisão exibia o futebol.
Aproveitando a situação, mamãe amolou os caninos e atacou o pescoço do vigia. Tão velho era o
pescoço que quebrou um dos seus valiosos caninos. No pescoço, no lugar de dois furinhos, havia
um dente enorme cravado e uma perfuração que dava para ver o outro lado.
Como ele ainda estava vivo — e bem vivo — golpeei o jantar, digo, o vigia, com sua televisão
até ela sair do ar. Mamãe sugeriu virá-lo de ponta-cabeça em busca da artéria aorta. E só assim
foi concluída nossa traumática refeição. Mamãe ainda saiu se lamentando pela perda do dente e
eu, com azia, devido ao cuscuz com salsicha e ovo que o finado tinha comido no jantar.
Devido a esse acontecimento triste — porque não é todo dia que um ente querido perde um
canino — fiquei sendo o provedor da casa enquanto ela esperava uma prótese vinda da
Transilvânia.
Em um dos meus voos de caça, vi no redário uma obra-prima da espécie humana. Que pescoço!
Lindo, roliço, apetitoso, coisa de primeira e sem tireoide. Um verdadeiro pitelzinho.
Num golpe certeiro, cravei meus dentes na jugular dela e não deu tempo de a moça dizer nem “ai,
vou morrer”. Aproveitei e levei uma quentinha para mamãe, mas antes me certifiquei de que ela
tinha se transformado numa linda morcega. Contudo, sua falta de experiência — e ainda tomada
pelas circunstâncias — fez com que ela fosse de encontro a um ventilador, sobrando só um
molarzinho pequeno e a saudade.
Na volta para casa, ainda dei uma sugada na cacatua do 703–M, deixando ela parecendo um
espanador — só as penas.
Estava completando três meses quando mamãe recebeu a reposição do seu canino. Lembro bem,
porque foi justamente o dia em que o nosso síndico, o senhor Adalberto, marcou uma reunião dos
condôminos no salão de festas.
Para nós era um evento, pois a última vez que fomos convidados foi para o batizado de Elimar
Santos. Então caprichei no preto da vestimenta. Mamãe foi de pretinho básico e um chapéu preto
maravilhoso — tipo Melani ou Zorro.
Ao chegarmos, logo soubemos o motivo da reunião: com protestos como: Queremos justiça.
Minha cacatua não é espanador. Quem matou Totó e Fifi vive!
Adalberto inicia a reunião, sendo o primeiro ponto a proposta de criação da guarda especial,
formada por moradores, mas logo surgiu uma questão de ordem:
— É muito grave a situação. Até almofada do sofá está sendo abduzida! Não seria o caso de um
exorcista? Quem sabe o Padre Quevedo...
— Aeronáutica e Exército! Isso é coisa de UFO! São ETs levando nossos filhos peludos pra
experimentos genéticos! — exclamou o coronel Ney. — Não duvido nada que, qualquer dia
desses, apareça um Rottweiler falando igual a uma Cacatua.
— Gente, vamos parar de devaneios — pondera o professor Stênio. — E se, simplesmente, eles
fugiram? Cansaram das brincadeiras, das frescuras de humanos e dos regulamentos. Ganharam a
rua pra fazer cocô onde bem entenderem, revirar lixo, mijar nos postes e correr atrás de moto.
Enquanto os moradores tentavam achar um culpado para o triste ocorrido, minha mãe tentava
mostrar interesse e preocupação com a situação e, para disfarçar, pediu opinião ao Plínio do 604-
B se ainda valia a pena adotar um pet, pois estava querendo um casalzinho de chihuahua.
Eu, com minha agenda, como se estivesse registrando tudo, fazia anotações bem peculiares: 303-
C — pescoço fino sem atrativo, talvez para sopa. 809-F — tipo exportação, dois centímetros
abaixo do lóbulo da orelha esquerda, força moderada, acompanha bem um Cabernet Sauvignon.
E assim fui fazendo o mapa da disponibilidade proteica para evitar voos aleatórios e produtos de
baixa procedência.
Devido à reunião ter descambado para protestos e propostas de solução duvidosa, acharam
melhor chamar o detetive Valdeci.
Valdeci Guerra — foi assim que o detetive se apresentou para uma plateia que via naquele
homem a reencarnação do Sherlock Holmes. Ele começou sua fala dizendo que não havia crime
perfeito. Garantiu que o ou os criminosos haviam deixado rastros por todos os lados.
E então, com uma convicção quase mística, declarou:
— E, meus senhores... ele ou ela pode até estar aqui. Nos vendo. Nos ouvindo.
Silêncio. Um arrepio coletivo percorreu o salão.
Será que esse tal de Valdeci é vidente, pensei, enquanto observava os olhares se cruzando e as
respirações se contorcendo em desconfiança.
Com um sorriso de canto de boca, mamãe concluiu, em sussurro:
— Adivinha quem veio para o jantar. Vou já inaugurar meu canino.
E a promessa foi cumprida dentro do carro do detetive, restando apenas um cartão de visitas: Dr.
Valdeci Guerra — Sommelier de Alho.
Infelizmente, já era tarde demais.