Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos

Entre o Ótimo e o Péssimo

Minha mãe tinha umas histórias bem engraçadas. Estava pensando em alguns episódios que lembro perfeitamente e quero compartilhar com você, meu amigo ou amiga leitora.

Como é um assunto bem familiar, procure se acomodar no melhor lugar da sua casa para receber esses acontecimentos verídicos que vou contar.

O cruzeiro

Vou começar pelo tão sonhado e aguardado cruzeiro marítimo. Assim que teve condições, lá foi minha mãe, junto com uma amiga, embarcando do Recife para Manaus.

Por economia, comprou uma cabine interna — e só descobriu que ela ficava abaixo da linha do mar quando já estava instalada no seu cubículo.

Mal o navio seguiu oceano adentro, veio a primeira preocupação:

“E se afundar? Minha cabine está embaixo d’água… vai ser a primeira a inundar! Como vou achar a maçaneta da porta? Não conheço o ambiente, ainda por cima embaixo d’água e no escuro…”

Resultado: durante toda a viagem, de ida e volta, a porta da cabine ficou apenas encostada, presa entre duas malas. Virou um verdadeiro sanduíche de bagagem.

O bingo

Outro episódio desse “pesadelo” — digo, viagem — foi o lazer após o jantar. Engana-se quem pensa que ela ia relaxar… não.

Ia para o bingo e passava o tempo torcendo para não ganhar, pois morria de vergonha de ir buscar o prêmio. Era terminar o jantar e já começava a dor de cabeça da preocupação.

— Mamãe, e por que você ia para o bingo? — perguntei.

— Já tinha comprado as cartelas, não ia perder — respondeu.

— Mas você perdeu do mesmo jeito!

— Pelo menos vi gente bonita e me distraí — concluiu ela.

O centro espírita

Uma vez, minha mãe foi com minha irmã a um centro espírita. Durante a reunião, o dirigente perguntou se algum dos presentes estava ouvindo algo.

Ela, toda satisfeita, levantou o braço:

— Estou ouvindo um pequeno barulho, como se estivesse tocando um sino...

Minha irmã olhou para ela e disse:

— Mamãe, é o seu relógio.

O Geraldo

Anos depois de viúva, minha mãe reencontrou um antigo amigo, o Geraldo, e começaram a se ver. Aos domingos, ela ia almoçar com a família dele e, depois, tomar um sorvete.

Os comentários eram impagáveis:

— O prato do Geraldo era por cima de batata palha… só porque não pesa. Eu, que não sou boba, fui no purê de batatas. E, na hora do sorvete, coloquei tanto que as bolas ficaram na minha frente e eu tinha que me inclinar para o lado para conversar com a pessoa à frente.

Um dia, ela estava calada na sua cadeira de balanço e me disse:

— Me canso muito quando ele me chama de “Boneca”. Coisa mais chata… acha que eu sou a Barbie.

O fim da amizade

Essa amizade durou até o Dia dos Namorados. Minha mãe pintava em tecido com muito capricho. Para presentear o Geraldo, comprou uma caixa de lenços e pintou as iniciais dele. Levou quase uma semana para terminar.

Chegou o grande dia. Às 10 da manhã, ouviu-se, como de costume:

— Dona Lúcia Veiga ainda dorme???

Ela, toda alegre, entregou o presente bem embrulhado, fruto de horas de dedicação. O Geraldo simplesmente disse:

— Pra que você fez isso? Agora vou ficar na obrigação de comprar um presente pra você.

A amizade acabou ali.

O clube da melhor idade

Ela se matriculou em um grupo da terceira idade e logo começaram os passeios — e, claro, as suas observações:

— A Aline dança de pernas abertas, parece que está a cavalo.

— A Cleonice pensa que o professor está ali para dançar apenas com ela. Cada uma tem direito a três danças.

Agora, meu amigo, imagine a paciência desse professor… dezessete senhoras prontas para dançar e apenas um cavalheiro. Você, meu amigo leitor, gostaria de estar no lugar dele?

Bom, não sei se foi o destino ou o “olho gordo” das colegas, mas um dia minha mãe levou uma queda e passou alguns meses sem dançar.

Na sua volta, providenciaram até um banquinho para ela alcançar o degrau do ônibus das excursões e recomeçar o seu baile-show.

Com mamãe não tinha meio-termo: ou era tudo ÓTIMO ou PÉSSIMO.

Passeio com a amiga

Uma das coisas que ela achava “ótimo” era ir passar um dia na casa de praia de uma amiga do tempo de colégio.

— E aí, mamãe, como foi o passeio? — perguntei.

— Foi ótimo, meu filho. Fui e voltei de bolsa fechada. Ela pagou o táxi, a balsa, o almoço e o lanche.

Entendeu bem o sentido de “ótimo”? Hein?

Encerramento

Bem, meu amigo, aqui estão apenas alguns registros entre tantos outros que guardo na memória. Espero que você tenha achado ÓTIMO — ao ponto de deixar um comentário, mesmo que seja PÉSSIMO.

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 13/08/2025
Alterado em 14/08/2025
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