Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos

Quando o Tempo Anda de Ré

Começando uma nova semana, renovando as esperanças de que passe bem rápido. Depois da aposentadoria, a cada dia minha agenda fica mais vazia.

Acho que vou ter que colocar como atividade minhas idas ao banheiro e à geladeira para ver se dou volume aos meus afazeres.

Para o amigo ter uma ideia, quase convidei para um lanche o rapaz do combate à dengue que esteve hoje aqui em casa revirando cada jarro das plantas da minha mulher.

Quase me voluntariei como ajudante do Humberto, o exterminador de dengue, para auxiliá-lo na caça aos focos. Embora não seja tão focado no trabalho, o ócio também dá muito trabalho.

Imagine o que é você acordar e passar 40 minutos sem saber se coloca a bermuda caqui ou a azul-marinho.

Ou se, simplesmente, faz de doido procurando um chinelo no qual você já pisou quatro vezes.

A vida de um aposentado tem dessas peculiaridades — ou eu podia ter escrito: “tem dessas coisas”, mas “peculiaridade” é maior, ocupa mais meu tempo.

Vou ao supermercado e é bom dia da entrada à saída... Bom dia para o segurança, para a estoquista, para o rapaz dos frios, para a moça da padaria, para o pessoal da limpeza.

E, se algum cliente me der trela, pronto, aí aproveito para puxar um breve papo. Acho que, quando apareço na entrada da loja, já dizem: “Vixe, lá vem o véio do bom dia...”

Minha pena é que moro perto do supermercado. Não que seja ruim, mas, se fosse mais longe, o papo com o Sr. Lima, nosso cativo motorista de táxi, seria mais longo e proveitoso (para ambos).

Meus planos para a aposentadoria eram lindos, perfeitos. Só esqueci que o valor que eu ia receber tinha um plano diferente do meu.

Aquela ida à praia pela manhã bem cedo, pegar o carro ainda com aquele aroma de frescor do puro ar e ir, janelas abertas, em direção ao cativante mar... Era o plano.

Era, eu falei, pois logo após cometer a aposentadoria, vendi o carro — para alegria do Sr. Lima.

Comecei aí a ver minha nova realidade, porém ainda tinha outro sonho que podia concretizar: eu tinha tempo!

E bota tempo nisso. É como se o relógio desse um passo para frente e dois para trás, e, de vez em quando, me mandasse voltar dez casas... digo, dez horas.

As horas passam à la Rubinho, e eu fico aguardando os ponteiros me mostrarem que chegou a hora de... tomar banho.

Pronto, essa grande façanha já sai avisando em casa: “Vou tomar banho... viu? Estou indo tomar banho.”

E um silêncio ensurdecedor me deixa no vácuo.

Como se dissessem: “Grande merda. Quer o quê? Uma sinfonia enquanto lava seu furico?”

Agora estou novamente no sofá, no mesmo canto que estava antes de lavar o furico, fazendo a mesma coisa que fazia com o furico sujo. Ou seja: nada.

Por um momento tento filosofar: devo ou não devo tomar três banhos ao dia?

Essa minha ocupação pode refletir em um aumento na conta de água ou, pior... será que o furico perde a catinga sendo lavado tão constantemente?

Por cinco minutos fico nessa dúvida, até voltar ao normal e observar que ainda falta muito tempo — ou melhor, ainda sobra muito tempo — para tentar fazer uma nova crônica.

Imagine se isso aqui não existisse...

Como esse tempo iria judiar de mim, como eu estaria pensando em coisas tristes, em vez de estar aqui tentando te fazer soltar um lindo sorriso.

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 11/08/2025
Alterado em 11/08/2025
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