Humor, ironia
O grande dilema de quem escreve é sempre o mesmo: dizer o que quer ou o que o outro quer ouvir.
E, no meu caso, há ainda o que posso dizer — que, infelizmente, é bem menos do que gostaria.
Vontade de mandar tudo para aquele lugar? Tenho.
Vontade de sacudir o tapete onde tanta coisa foi escondida? Também tenho.
Mas posso? Não.
Talvez estejamos voltando aos tempos das receitas.
Pena que não herdei o caderninho da vovó para mascarar a decepção de viver aqui.
No máximo, posso preparar um Bolo da Moça — aquela, esmurrada 61 vezes num elevador aqui em Natal.
Ou um Brigadeirão — do tipo que fica guardado atrás de enfeites brilhantes para não ser visto.
Quem sabe um Pavê — só para ficarmos na expectativa de dias melhores.
Pode ser até um Gelato, ou Sorbet, ou Sorvete… afinal, muda-se o rótulo, mas é sempre a mesma coisa.
Aliás, acho que estamos mais para Gelatina: trêmula, bonita, porém sem sabor marcante.
Ou um Bem-Casado — espremido por cima e por baixo, como num sanduíche de decisões que não favorecem o cidadão.
Somos o que eles querem: pseudos qualquer coisa, menos cidadãos com a chance de provar o Manjar do Céu.
E provar o Manjar? Nem pensar.
Vá comer pé de moleque e só apareça aqui às vésperas da eleição — que aí, quem sabe, eu te dou um Beijinho… ou, para variar, um Olho de Sogra.