Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
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Gostou? Quer a Receita?

Hoje me veio à cabeça que existem vários tipos de anfitrião, e o amigo ou amiga leitora já deve ter visto isso, mas talvez não tenha analisado o caso detalhadamente — nem podia, mesmo porque há coisas mais importantes para fazer no dia a dia.

Quando a gente chega a uma certa idade, já foi a tantos aniversários e recepções dos mais variados tipos que poderia até fazer um documentário. Eu me enquadro nesse grupo e vou começar logo detonando a minha querida tia Aparecida.

Os bolos dos aniversários da família dela eram muito gostosos, daqueles que você come e fica poupando, com medo de que acabem logo. Infelizmente, acabavam muito rápido, pois a fatia era tão fina que dava vontade de chorar. Logo, passamos a rotular qualquer porção pequena servida com a frase: “parece que foi a tia Aparecida que partiu a fatia”.

Em contrapartida, a tia da minha mulher, Anita, servia uma porção capaz de saciar até um pedreiro. Era algo descomunal, de deixar proprietário de qualquer self-service sorrindo. Naturalmente, adotamos para qualquer porção fora do padrão convencional a expressão: “parece que foi a tia Anita que serviu”.

Também tinha a esposa de um primo do meu pai, a Juraci, e já sabíamos que, no jantar, seria servido vatapá. Isso mesmo! E pior: na casa deles eram cinco, mas, independentemente da idade do aniversariante, o vatapá estava sempre presente. E não ficava só nisso: Juraci ia de convidado em convidado perguntando:
— Gostou? Quer a receita?

Se tivesse vinte convidados, todos saíam com um papelzinho com a bendita receita. Como nós éramos da família, mamãe recebia cinco receitas de vatapá por ano. Em casa, já havia três gavetas lotadas da receita do mesmo prato. Agora, imagine, meu amigo e minha amiga, a Juraci no MasterChef...

Tinha também o aniversário dos netos da nossa vizinha, que moravam em um dos primeiros blocos de apartamento daqui de Natal. Esses prédios não tinham área de lazer, e a festa não cabia no pequeno apartamento. Logo, o corredor ficava tomado de cadeiras, uma de frente para a outra, como se fosse para dançar uma quadrilha junina. Contudo, no máximo, você comia um cachorro-quente e tomava um copo de refrigerante, pois não dava para trafegar com bandejas no corredor. Tudo bem, acontece. Mas, para Dona Luzia, a minha vizinha, a festa tinha sido o máximo, e ela falava para minha mãe:
— Viu, Lúcia, que festa? Meu filho sabe receber muito bem.

Só para te situar melhor: ela tinha apenas esse filho.

No fim das contas, percebo que cada um tem seu próprio “estilo” de receber. Uns medem a fatia com régua, outros exageram como se o prato fosse competir em peso, e há aqueles que fazem questão de repetir a mesma receita até virar patrimônio da família. No fundo, todo anfitrião deixa sua marca — e nós, convidados, é que viramos colecionadores dessas histórias.

Gostou? Quer a receita?

Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 10/08/2025
Alterado em 10/08/2025
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