Humor, ironia
Uma homenagem ao meu pai, Manoel Pires Fernandes (Didi), que deixou em mim a marca do amor, da simplicidade e da ausência que dói.
Hoje estive pensando em meu pai.
Papai era um homem simples. Foi taxista no Rio de Janeiro, embora natural de Pau dos Ferros, município do Rio Grande do Norte. Deve ter chiado um bocado até convencer minha mãe a se apaixonar por ele. Mas ela, sempre engraçada, dizia que já estava “apitando”, por isso tinha casado.
Lembro bem dos dois indo ao cinema. Mamãe, como muitas mulheres, queria ver um romance ou um suspense — adorava Agatha Christie e Alfred Hitchcock. Já papai preferia um bom faroeste italiano.
E lá iam os dois rumo ao Cine Rio Grande ver mais um filme de cowboy. Até aí, tudo bem — dizia ela — mas, quando o filme começava, ele saía da sala pra fumar, e ela ficava assistindo sozinha aquele festival de tiros.
O resultado? Voltava com dor de cabeça, e ele querendo saber das partes que tinha perdido.
Outro passeio maravilhoso que fazíamos — acredite se quiser — era andar de carro pela avenida Hermes da Fonseca para ver os postes iluminados com as novas lâmpadas a mercúrio.
Sim, passeio para ver poste. Mas agora de carro: papai havia comprado um Jeep Willys.
Lá íamos nós. O casal na frente, eu e minha irmã nos bancos de trás. Isso mesmo: os bancos. Eram dois, um de frente para o outro. Quando eu tirava os olhos dos postes, dava de cara com minha irmã, ali, “de front off” pra mim.
O passeio não durava mais que trinta minutos. Não tinha lanche, não tinha sorvete. Era luz de mercúrio... e casa.
Acho que nessa época eu tinha uns oito, nove anos. E tudo era lindo — até o Jeep.
Minha mãe pintava em tecido como poucas. Nossa vizinha, uma artista conhecida, quando estava com muitas encomendas, passava parte do trabalho para ela. Então, muitas vezes, mamãe varava a noite entre pincéis e tintas.
Meu pai era funcionário público estadual. A renda das pinturas ajudava a manter a casa. Era um time.
E assim eu vivi até os meus treze anos, quando um dia, meu pai saiu para trabalhar... e voltou morto.
Foi assassinado pelo próprio chefe.
Daí em diante, não sei mais o que dizer. A voz embarga, os olhos lagrimeja, o queixo treme.
A saudade toma conta, e as lembranças, que eram lindas, passam a carregar a dor da perda.
Amem enquanto podem. Abracem, beijem, gritem aos quatro cantos: eu te amo.