Humor, ironia
Cem por Cento de Um Lado Só
O primeiro sinal de que estamos ficando velhos é o fato de uma simples consulta médica de rotina tirar o nosso sono por dias. Comigo, até um simples exame de vista se transforma em um desafio que só a minha mente — especialmente criada para produzir absurdos — consegue imaginar. Isso vai desde um diagnóstico do tipo: “Pronto, Luciano, terminei. Agora escolha a cor da sua bengala enquanto pode” ou... “Gosta de cachorro?”
Fui recentemente a um desses exames. Aparentemente tranquilo, fui acompanhado por minha mulher e filha. Não que elas tivessem ido para segurar minha mão, mas também iam fazer a tal revisão, já que fazia cinco anos desde nossa última visita ao Dr. Ricardo.
Eu fui o segundo a ter os olhos catucados. Bota luz de um lado, manda ler letrinhas, coloca um instrumento que parece um periscópio de submarino e, para amenizar, ainda solta uma frase — pra mim, perturbadora:
“Agora vou ver o fundo do olho.”
Pronto. Gelei.
Nossa, será que ele vai retirar as bolas dos meus olhos pra ver como está por trás?
Já me pegando aos santos, tentando levar o pensamento a algo agradável — tipo uma cerveja gelada com a prometida picanha —, o médico simplesmente emite um ruído...
Será que é bom ou ruim? pensei instantaneamente, ao mesmo tempo em que a picanha e a cerveja foram dando lugar a um lindo cão-guia.
“Vamos ter que dilatar sua pupila”, decretou o Dr. Ricardo.
Porém, essa informação não me abalou. Não que eu seja um ser deveras encorajado para essas ocasiões, mas já tinha visto esse procedimento nos olhos da minha filha — e ela sobreviveu sem nenhum dano.
O médico pegou um vidrinho de pimenta tabasco, digo, colírio, e colocou dois pinguinhos em cada olho. Que beleza em saber que era em gotas e não injetável, como a minha mente já estava criando a cena.
De volta à cadeira oficial do Dr. Ricardo, sou novamente examinado. E o veredito:
“Esse olho, o direito, você vai enxergar cem por cento. Porém, o esquerdo, só noventa por cento.”
Quase que dou um abraço nele de alegria. Depois de tanto revirar meus olhos, achei até que a menina dos meus olhos tinha se mudado por invasão de privacidade.
Esse pesadelo passou. Agora vem o próximo: o da compra dos óculos.
Porque um dos meus rins já está hipotecado e minha aposentadoria é compartilhada com um pessoal extremamente carente.