Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos
Operação Sino
Viagem
Posso garantir a você que foi a coisa mais impressionante e diferente que já vi na minha frente. De repente, me vi parado diante daquela máquina, não muito grande, mas de aspecto inexplicável. Era algo físico—eu via e sentia sua presença—mas envolto em uma névoa que distorcia sua forma; às vezes parecia sólida, em outras, algo gelatinoso e líquido. Mudava de lugar na sala em flashes de luz sempre que eu tentava me aproximar. Sua cor tinha um brilho metálico muito bem polido, contrastando com peças mais rústicas que pareciam mais resistentes. O ano era 1981. Para ser mais preciso, 2 de outubro. Lembro bem, pois era o aniversário da minha mulher e eu estava indo ao encontro dela para almoçarmos juntos. Com um lindo buquê de flores vermelhas já em mãos, pensei em seus bombons preferidos e, ao entrar na bomboniere, me deparei com aquela cena. Na verdade, não havia mais loja, mas sim um espaço que abrigava aquela máquina. Enquanto tentava me situar no contexto, obtive uma resposta até então inimaginável: uma voz começou a soar dentro do meu cérebro, tentando se comunicar, mas as ondas sonoras oscilavam demais. No fundo, ouvia gritos histéricos, aplausos e frases picotadas que pareciam sussurros, como se minha mente tentasse, em vão, sintonizar um rádio desregulado. Andei ao redor da máquina, tentando captar melhor a mensagem que estava vindo. Para o meu pavor, ouvi claramente um "Heil Hitler". Fiquei paralisado de medo quando consegui compreender que se tratava de um discurso desse monstro da humanidade. Tentei correr, mas minhas pernas não obedeciam aos meus comandos. Eu estava muito próximo da máquina e, agora, pude ver seu formato de sino e, no lugar da argola de sustentação, uma suástica. A situação piorou quando o sino começou a levitar e flutuou sobre mim. De sua base, abriu-se um portal em tons pastéis até que uma luz brilhante me ergueu do chão e, delicadamente, me colocou em uma espécie de poltrona ajustável ao meu corpo. Eu estava preso, mas sem amarras. Pude ver todos os comandos e instrumentos que, mesmo sendo leigo em aviação, percebi que eram equipamentos antigos. De repente, senti algo parecido com uma pequena incisão cirúrgica, que durou no máximo uns 3 minutos. Em seguida, tudo que estava escrito em alemão passou a fazer sentido para mim. Eu não só entendia, mas conseguia até ler em voz alta. Bom, estou falando aqui, mas ainda não me apresentei a você. Não é fácil sair do anonimato com uma história dessas—o tipo de coisa que pode me render um atestado de insanidade mental vitalício. Mas, amigo, eu te garanto: é a mais pura verdade. Vamos lá: meu nome foi dado em homenagem ao único presidente dos Estados Unidos eleito quatro vezes, Franklin Delano Roosevelt. Agora, imagine um nordestino professor de história, nascido na linda cidade do Natal, capital do Rio Grande do Norte, tendo que explicar a origem do nome toda vez que se apresenta. Esse foi o grande feito do meu pai. Mas, para sua decepção, acabei sendo chamado de Del pelos amigos. De volta à máquina. Dentro do artefato, senti como se tudo ao meu redor estivesse se fundindo em uma grande bola de luz. Na minha mente, os acontecimentos — não só da minha vida, mas do mundo inteiro — passavam em ordem regressiva, como se alguém tivesse apertado o replay da história. Não faço ideia de quanto tempo fiquei submerso nessa retrospectiva forçada, só sei que, depois dela, eu estava pronto para dar aula em qualquer cursinho pré-vestibular do mundo. Passado esse lapso temporal, senti meu corpo novamente livre. Mexi a mão com cautela até alcançar um painel à minha frente. Um visor piscava em letras nítidas e assustadoramente diretas: "12:03 Uhr — 3. November 1938",
"Standort: Berlin" e
"Operation erfolgreich abgeschlossen”.
Pisquei. Olhei de novo. Li em voz alta. Só então me dei conta: eu tinha entendido perfeitamente. Sem esforço, sem gaguejar, sem precisar recorrer a um dicionário. Meu cérebro travou por um segundo, tentando processar. Como assim? De onde veio esse alemão fluente? E por que, diabos, minha voz agora soava como um legítimo cidadão de Munique? Foi aí que lembrei que eles tinham me implantado algo, talvez um chip. Respirei fundo. O visor que brilhava na minha frente me mostrava os mesmos dados, agora facilmente compreensíveis: 12h03 — 3 de outubro de 1938 — Localização: Berlim — Operação realizada com sucesso. Foi quando a ficha caiu. Eu tinha acabado de ser transportado para a Alemanha nazista. Isso mesmo, meu amigo, um voo direto e sem direito à barrinha de cereais nem mãe pedindo lugar para filho chorão. Mas, pelo preço não podia reclamar nada . Minha descida em solo germânico foi tão espetacular quanto minha abdução. Muitas luzes, efeitos especiais dignos de um astro hollywoodiano, e, quando o processo foi concluído, lá estava eu: de calça jeans, camiseta da Riachuelo, tênis e um buquê de rosas vermelhas nas mãos, parado diante de uma plateia de uns 27 militares nazistas e alguns civis. No meio deles, um rosto conhecido. Wernher von Braun. Todos me encaravam, completamente atônitos. Mas ninguém mais do que eu mesmo. Foi quando, no meio da confusão, meus olhos bateram numa faixa escrita com um inglês meio capenga: "Welcome, President Roosevelt." Aí tudo começou a fazer sentido. Os super-humanos, os gênios da raça superior, cometeram um pequeno errinho. No lugar de abduzirem o Presidente dos Estados Unidos da América, levaram o Roosevelt do nordeste do Brasil. Euzinho aqui. Pode acreditar. Caí na malha fina do III Reich por culpa de um homônimo, e eu preocupado se minha mulher ia gostar ou não das flores. Passaram-se alguns minutos, que para mim foi uma eternidade. Aquelas faces avermelhadas e rechonchudas foram perdendo o brilho nos olhos, e os sorrisos nos lábios deram lugar a uma expressão austera. Então, rompendo o silêncio sepulcral, veio a ordem: — Arranquem essa faixa de bosta e conduzam esse indivíduo à Chancelaria. Utilizem o Túnel 07. Três enormes soldados da SS e um cabo me cercaram. Um deles arrancou o ramalhete de flores da minha mão, e o cabo, num surto de delicadeza, gritou: — Ande logo, cocô. — Eu vou denunciar isso nos direitos humanos, protestei. Claro, claro, isso deveria ser algo para o futuro... ou não. Mas tentei fazer valer a minha "autoridade" moral. O soldado me olhou com uma expressão confusa, como se eu tivesse acabado de falar em algo inexistente, e apenas bufou: — Direito o que, seu cocô? — Direito… humano! Eu vou denunciar no futuro! O soldado me olhou como se eu tivesse pedido uma viagem para a Lua. — Direito humano? Espera até o Himmler saber disso... Falou o cabo, já se achando um grande oficial. Eu, por outro lado, só pensava se conseguiria me livrar de toda aquela confusão sem acabar numa camisa de força... ou pior, sendo forçado a cantar o hino nazista. E foi isso. Ele puxou o meu braço, me empurrando para o túnel, enquanto os outros soldados riam de forma sínica, como se minha tentativa de protesto fosse a piada mais engraçada do dia. Ainda ouvi um deles falar: — Cocô, você perdeu um dos melhores discursos dele! Aposto que até você chorava! — disse um deles, rindo. Depois de alguns empurrões e piadinhas, finalmente chegamos ao final do túnel.
O Primeiro Contato Com Hitler
O luxo e a opulência eram evidentes, confirmando a grandeza milenar alemã — que começava pelo tamanho colossal das portas, passava pela altura das janelas e culminava na beleza do mármore, que dava até pena de pisar. A decoração era austera, mas de muito bom gosto. Uma imensa tela retratava o líder da nova Alemanha, e, do alto do andar superior, uma gigantesca bandeira com a suástica tremulava de forma assustadora.
No final de um longo corredor, dois guardas com seus uniformes negros impecáveis — que, diante da grandiosidade da porta, pareciam insignificantes — protegiam a entrada da sala que dava acesso ao chefe supremo do povo ariano.
Um ajudante de ordens me revistou com eficiência germânica e recolheu minha carteira com documentos e alguns cartões de crédito, inclusive o da Renner. Ele examinou os cartões, revirando-os várias vezes, como se tentasse entender para que serviam (provavelmente achou que eram para abrir envelopes). Juntou tudo numa pasta e entrou na sala.
Pouco tempo depois, voltou sem a pasta, mas com uma ordem que me deixou pálido de medo:
— O Führer vai recebê-lo. Mas siga estas normas:
• Não se sente, não ouse fazer qualquer movimento sem ser autorizado.
• Não fale sem ser perguntado.
• Responda sempre: "Sim, meu Führer" ou "Não, meu Führer".
• Nada de piadinhas, nem comentários sobre futebol ou mulheres.
• Se sentir algum aroma de pum, bafo de boca ou cecê, comporte-se normalmente, como se nada tivesse acontecido.
• Nada de pedir dinheiro emprestado, nem para ele ser seu fiador.
• Ah, e ia esquecendo: não faça comentários sobre o bigodinho dele.
Eu estava apavorado. O mais estranho é que não conseguia parar de pensar em como tudo aquilo parecia uma grande peça de teatro. Eu só queria sair dali e voltar para minha vida normal. Entretanto, a cada passo, a cada ordem, a sensação de que minha vida estava prestes a mudar para sempre se intensificava.
Fui conduzido até uma sala gigantesca, com paredes de mármore verde-claro que cobriam até metade da altura e, a partir dali, davam lugar a painéis de madeira escura envernizada. Um grande tapete em tons de cinza recebia a luz suave de lindos lustres de cristal, com adornos em ouro.
Em um canto, havia uma mesa de conferência que mais parecia uma obra de arte do que um móvel. Abrigava vinte pessoas em cadeiras com fundo de veludo verde-escuro e encosto de palhinha. Em outro espaço, mais próximo das grandes janelas, havia um sofá de seis lugares, reluzente pelo brilho do couro, e quatro poltronas igualmente confortáveis, ladeadas por pequenas mesinhas com fotografias em molduras impecáveis. E ali, sentado em uma das poltronas, estava ele: Adolf Hitler.
Ele olhou para mim com uma expressão séria, porém curiosa, como se tentasse entender o que eu era — ou o que eu representava.
A sala estava em silêncio absoluto. Eu nem conseguia respirar direito. O soldado que me acompanhava se posicionou ao lado da porta e fez um gesto para que eu me aproximasse de Hitler.
Quando finalmente consegui dar um passo, minha mente ficou em branco.
O que eu ia dizer? O que eu faria? Era claro que ele me via como uma figura importante — talvez até um emissário dos Estados Unidos — e eu sabia que não podia, de forma alguma, demonstrar o medo que estava sentindo.
— Senhor, o que o traz aqui? — disse Hitler, com uma voz calma e controlada e concluiu: quero respostas claras e explicativas. Não sei o porquê que dizem que é apenas para responder sim ou não. Vou até anotar aqui pra ver isso depois.
Eu olhei para ele, sentindo o peso de sua presença. Um homem que havia comandado a Alemanha, e que estava no ápice do seu poder. Mas, ao mesmo tempo, ele parecia tão humano, tão frágil e incrivelmente fingido. Era como se, por um momento, ele tivesse se despojado da sua imagem monstruosa e vestido a casaca dos justos.
Respirei fundo e, em um esforço para manter a calma, respondi:
— Eu sou Franklin Delano Roosevelt... ou, melhor dizendo, uma versão... alternativa dele.
O silêncio foi absoluto. Os olhos de Hitler se estreitaram. Ele não entendeu imediatamente o que eu queria dizer. Provavelmente pensou que eu estivesse brincando ou tentando ludibriá-lo. Mas, quando ele viu minha expressão séria, ele se recostou na cadeira e ficou em silêncio, analisando-me com mais atenção.
— Você diz que é Herr Franklin Roosevelt? — ele perguntou, como se estivesse tentando montar as peças do quebra-cabeça.
Eu assenti.
— Sim, mas não o Roosevelt que todos conhecem. Sou um Roosevelt de uma outra realidade, talvez uma linha do tempo paralela. O senhor deve estar se perguntando o que isso significa, e eu também. Porém uma coisa é certa: eu não sou a pessoa que o senhor espera.
Hitler olhou para mim com uma expressão indecifrável. Depois, olhou para o seu ordenança, que estava à porta, e fez um gesto para que ele se aproximasse. O soldado obedeceu rapidamente.
— Traga o Goebbels. E mande chamar o Wernher. Quero ouvir mais sobre essa história.
Eu mal pude acreditar no que estava acontecendo. Eles estavam levando-me a sério! Estavam tratando isso como uma questão de interesse estratégico. O Führer não parecia mais tão seguro de si. Ele sabia que havia algo mais por trás de minha presença ali. Algo tinha funcionado... errado, mas tinha.
A porta se fechou com um estrondo, e a sala ficou em silêncio novamente. Eu não sabia se devia relaxar ou ficar ainda mais tenso. O que aconteceria a seguir? Seria eu tratado como um prisioneiro ou como alguém que poderia ser útil para a causa nazista? Só o tempo diria.
Enquanto isso, minha mente fervilhava. Eu pensava no quanto minha vida tinha virado de cabeça para baixo em questão de horas. Uma viagem ao passado, a uma realidade alternativa, me colocara diante do mais temido tirano da história. Era como se as regras do universo tivessem sido quebradas, e eu tivesse sido arrastado para esse pesadelo.
Enquanto aguardávamos a chegada dos convocados para desvendar o mistério, Hitler puxou conversa:
— E o Getúlio, como vai?
— Meu Führer, eu venho do ano de 1981. O presidente do Brasil é o general Figueiredo, João Baptista de Oliveira Figueiredo. O Getúlio suicidou-se em 1954.
— Foi chifre? — pergunta o alemão.
— Não, meu Führer. Foi muita pressão interna. Ele até deixou uma linda carta de despedida.
— Herr Roosevelt, você acha possível trazer Getúlio para o Eixo? — pergunta Hitler.
— Não, meu Führer. O Brasil vai entrar na guerra, mas do lado dos Aliados.
A fisionomia do ditador se fechou. Em seus olhos havia algo maligno; seus punhos se cerraram e, esbravejando, concluiu com estas palavras:
— Também, que ajuda militar poderia vir de um país desses... Canoas, arco e flechas ou mosquetes?
E ordenou:
— Se lhe for perguntado isso, você responderá: "Claro que apoiamos o Eixo."
E, com um olhar que ultrapassou o meu eu, finalizou:
— Você me entendeu, Herr Roosevelt?
— Sim, meu Führer.
E pensei comigo mesmo: como eu, um simples professor de História, entrei numa enrascada dessas?
Tantas opções que existem na linha do tempo, e eu caio logo aqui — nesse manicômio de lunáticos satânicos.
Nesse momento, a presença de Goebbels e de Werner von Braun foi anunciada.
Eu gelei.
O ministro da propaganda, que mentia tanto que a mentira virava verdade.
O inventor das bombas voadoras.
O chefe da gangue.
E eu, um natalense tentando se manter vivo.
Não sei pra quê, mas algo me dizia que eu era a parte mais fraca. Para o meu (relativo) conforto, pelo menos fisicamente falando, ele — o ministro da Propaganda do III Reich — era a parte fraca... reconheci Joseph Goebbels facilmente dos livros de História, mas não tinha ideia de que o homem parecia um faquir. Magro, alto, manco, se enrolasse um lençol nele seria a metamorfose perfeita.
Muito bem-vestido, cabelos negros com uma farta porção de brilhantina, falante, porém com um bafo capaz de entortar metais. Por isso a saudação nazista ele fez lá na porta — uma precaução sanitária, talvez. Mas uma indiscreta rajada de vento trouxe até nós um genuíno aroma de bosta ariana.
Hitler, com um lenço no nariz, comentou:
— Caro Herr Ministro, sua posição dispensa a saudação... principalmente nesses decibéis.
Já Werner, discreto e submisso (afinal, quem não seria?), se colocou à disposição para qualquer esclarecimento técnico ou metafísico, se preciso.
Hitler hesitou um pouco, fez um gesto para o gramofone, e a ópera “As Valquírias” começou a tocar. Então concluiu:
— Acho melhor chamar também o Göring.
Não demorou e o ordenança de Göring respondeu:
— Meu Führer, o Marechal do Reich Herr Göring foi caçar.
Fui o quê? Será que eu ouvi direito... foi caçar javali?
— Sim, meu Führer. O marechal e a cúpula do Ministério da Aeronáutica só trabalham até as quartas-feiras.
Com um aceno impaciente, Hitler dispensou o ordenança e explodiu:
— Esse usuário de morfina deve ter fumado maconha estragada! O que esse gordo — mais rechonchudo que o dirigível Hindenburg — pensa que isso aqui é? Uma republiqueta pé de chinelo?
Fez uma pausa dramática, apontou para o chão como quem finca uma bandeira, passou a mão na testa para ajeitar seus finos fios de cabelo no lugar, caminhou até uma das janelas e cruzando os braços e concluiu:
— Gente, isso aqui é o Terceiro Reich Alemão! Esse império vai durar mil anos... ou mais uma coisinha. E não vai ser nenhum Zé Ruela que vai atrapalhar meus planos. Eu falei... meus planos.
E depois de alguns minutos de um silêncio sepulcral, Hitler dirigiu-se ao seu engenheiro de foguetes — chamado, por seus desafetos, de fogueteiro pirotécnico:
— Wernher, como um artefato de tal importância sai do Reich Alemão pelo mundo afora sem meu conhecimento? Quem traçou a rota e determinou trazer para nós um nordestino de um país que, de destaque, só tem samba e bunda? Hein? Explique aí...
— Meu Führer, no dia do ocorrido, 2 de outubro do corrente ano, estávamos fazendo a revisão mensal do artefato multidimensional atemporal, conhecido simplesmente como “Sino”. Nesse procedimento, simulamos sua partida. Ligamos o gerador, o transportador pneumático de matéria orgânica, o transportador de micromatérias e adjacentes, e o rotor do solenoide e similares quando, inexplicavelmente — igual a dinheiro público — o artefato desintegrou-se e desapareceu na nossa frente.
— Certo. E aí, o que vocês fizeram? — pergunta o Führer, já impaciente.
— Nós aproveitamos para passar uma vassoura no local que...
— Sua anta! Quero saber o que pode ter ocorrido para gerar tudo isso — e quais as providências para evitar sua repetição!
Wernher continua sua explicação:
— Depois de uma ampla, geral e irrestrita investigação detectamos que no exato momento do desaparecimento do artefato ocorreram nem uma, nem duas, mais três explosões solares que impactaram o campo magnético de todo o globo terrestre, menos na região de Madagascar e Natal, no Rio Grande do Norte. — Essas explosões danificaram o virabrequim, o que desencadeou todo o acontecido. O nosso radar de partículas transportáveis rastreou o Sino como se ele estivesse na capital americana, e aproveitamos e inserimos no decodificador modular o nome de Franklin Delano Roosevelt, nos referindo ao presidente não esse ser, sei lá o que.
Mas, meu Führer, já tomamos todas as providências para que tal fato não venha a se repetir. Isolamos toda a área do sino com papel alumínio e amarramos um cordão da batina de um frei franciscano. Vai lá que...
________________________________________
— Muito bem — falou Hitler, convidando a todos, inclusive eu, para tomar um chá na sala ao lado.
Uma mesa enorme, bolos, doces, salgados, biscoitinhos dos mais variados formatos e sabores.
Após o anfitrião se servir de uma generosa fatia de floresta negra, fui de strudel, e os demais atacaram a delícia de sua preferência — menos o Goebbels, que, por problemas estomacais, não foi além de uma xícara de chá de boldo.
Terminado o seu bolo, o Führer pediu a atenção de todos e comunicou algo que mudaria a minha vida para sempre:
— Enquanto degustava esse delicioso chá, que me transportou à casa da vó Baden, concluí que Herr Roosevelt será meu assessor particular.
Sei que todos devem estar pensando: “O Hitler está variando. Ele tá louco. Ele é isso, aquilo e outras coisitas más”.
Porém, quem melhor para me assessorar do que alguém que conhece o futuro, que sabe os acontecimentos?
Vou provar a vocês como estou certo. Caro assessor — ou melhor, futuro assessor — haverá em 1939 algum movimento bélico na Europa?
De pé, encho o peito e respondo:
— A invasão da Polônia pelas forças do III Reich.
Todos os presentes ficaram estarrecidos.
O boca de latrina, digo, ministro da Propaganda, já ficou em posição de sentido e, infelizmente, gritou:
— Heil, meu Führer!
No mesmo instante, Hitler chama seu ajudante de ordens para ver na agenda seus compromissos da semana. Faz questão de me apresentar à cúpula do partido e das forças armadas como seu novo assessor, em um banquete.
— Minha agenda! — ordena Hitler.
— Aqui está, meu Führer — responde o ajudante.
— Leia, por favor.
— Quinta-feira:
Manhã: desfile militar.
Tarde: discurso no Palácio dos Esportes.
Noite: desfile militar com tochas.
Sexta-feira:
Manhã: discurso no Palácio dos Esportes.
Tarde: desfile militar.
Noite: desfile militar com tochas.
— Pare, pode parar! — ordena Hitler, impaciente. — Não tem alguma programação diferente de discurso e desfile?
— Tem, meu Führer. Sábado à noite... jantar com a mamãe.
— Cancele esse compromisso e anote aí: banquete de posse do novo Assessor Pessoal do Adolf Hitler!
Avise ao cerimonial, quero tudo impecável — sentenciou o chefe alemão.
Tudo isso me pegou de surpresa, mas a garantia de que eu poderia me manter vivo aumentou bastante. Felizmente ou infelizmente, comecei a ter visões de Elizabeth — ela, sentada à mesa, me esperando para o almoço, enquanto um garçom lhe servia um guaraná champagne. Contudo, a imagem não era nítida. Parecia um filme que sempre retornava ao início, como se o tempo em que Elizabeth estava parada fosse o instante do meu transporte. Tudo isso ocorria em frações de segundos, mas me deixava angustiado, sem saber o que estava acontecendo com ela — e eu ali, cercado de malucos, agora promovido a assessor do próprio capeta com bigodinho.
Você agora deve estar começando a entender por que não revelei isso tudo antes, nem procurei as autoridades. Me diga, meu amigo, seja sincero: no meu lugar, você falaria? Vou te contar mais, pra você ver que o buraco é mais embaixo... bem mais embaixo.
Até chegar o sábado, fiquei como se estivesse de sobreaviso, sempre à disposição de um chamado Dele, a qualquer hora do dia ou da noite. Ele agora era meu senhor. E de todos os alemães.
Minha única saída era até o café e bar Crepúsculo dos Deuses, que ficava a duas quadras do Portão de Brandemburgo. Tomava um café com uma deliciosa fatia de torta de maçã e admirava tudo aquilo que, em alguns anos, se tornaria pó. Inclusive os bravos soldados da Wehrmacht, que, rindo e bebendo, agora cantavam abraçados a canção Erika.
O Banquete e Confidências
Chegou o grande dia. Às 20 horas em ponto, entro no imenso salão repleto de Senhores e Senhoras da nova elite alemã. O cheiro de perfume francês dava para sentir desde a escadaria — talvez seja por isso que eles quiseram tanto invadir Paris. Os oficiais estavam todos lá: Himmler, Hess, Keitel, Heydrich... O médico particular do Ditador alemão  Dr. Morell, Goebbels, e todos os outros que faziam parte da gangue — porque lá, como aqui, festinha boca-livre ninguém perde.
Estava cumprimentando Wernher quando ouço um chamado:
— Herr Assessor, junte-se a nós! — falou o bolota, digo, Göring.
E continuou:
— Infelizmente não pude estar presente na sua primeira entrevista. Tive que levar Mainha ao dentista. Fale, caro Herr Assessor: como são os aviões de combate nos anos 1980? Não me diga que são melhores do que o nosso Messerschimitt 109?
— Meu caro Marechal, os aviões de combate são a jato. Podem alcançar facilmente a velocidade do som e transportar armamentos de grande capacidade destrutiva. — Falei só pra deixar o ministro da Aeronáutica com água na boca.
— Mas como velocidade do som? Isso quer dizer que, se eu der um sustenido maior daqui em direção ao boca de latrina, o avião vai chegar primeiro? — indaga o ministro.
— Sim, caro Marechal. E digo mais: se o boca de latrina estiver com a dita cuja aberta, o caça desce de goela abaixo e ele nem vai ver.
— Inacreditável, meu caro Herr Assessor, inacreditável. Temos muito que conversar.
Nesse momento, foi anunciada a chegada de Hitler.
— Senhoras e senhores, o Führer Adolf Hitler!
E um Heil Hitler! foi dito com toda a força que os convidados conseguiam expressar. Ele caminhou entre os presentes, falou com um, saudou outro, beijou senhoras, passou a mão — sorrateiramente — na bunda da esposa do Goebbels e dirigiu-se, acompanhado por todos nós, até o espaço onde a solenidade seria realizada.
Bandeiras com suásticas desciam do teto, e alguns jovens da Juventude Hitlerista se perfilaram próximo a mim. O hino do Partido Nacional dos Trabalhadores da Alemanha ecoou por todo o ambiente, fazendo todos perfilarem em posição de sentido. Quando solicitaram minha presença no palco, fui escoltado por essa guarda jovem de cérebro lavado — e enxaguado — por esses tiranos.
No palco, ao meu lado, Hitler falou da grandeza da Alemanha. Exaltou sua importância, não só no presente, mas no futuro — o que, segundo ele, comprovava que o grande Reich alemão duraria mil anos, ou mais uma coisinha. Por esse motivo, eu me tornaria seu assessor particular e, como votos de boas-vindas, ele abriu uma pequena caixa de metal e me presenteou com um broche do partido... e uma bela cápsula de cianureto sabor menta.
Para encerrar a solenidade, recebi das mãos do senhor Wilhelm Kissel, presidente do conselho da Daimler-Benz, as chaves de um belíssimo Mercedes-Benz 540K Spezial Roadster, na cor prata. Ao me entregar as chaves, proferiu a frase que, dias depois, estampava todos os outdoors de Berlim, Munique e adjacências: “O Futuro Novamente nas Suas Mãos.”
A solenidade foi encerrada, o jantar servido, e a noite terminou com a apresentação do grupo folclórico de músicas antigas — e semidesaparecidas — da Baviera.
Contudo, antes de deixar o recinto fui abordado pela esposa do Goebbels, Magna, que queria saber se o Führer iria casar com Eva ou com outra mulher comprometida. Eu, só pra deixá-la ainda mais esperançosa, afirmei que ela seria a Senhora Hitler assim que a guerra fosse ganha.
Ela, em gratidão, retirou do pulso uma linda pulseira de diamantes e a pôs no bolso do meu paletó. Bem, financeiramente essa viagem, até o momento, tinha sido muito positiva.
________________________________________Minha primeira reunião particular com o Führer ocorreu na tarde do dia 9 de outubro. Lembro bem, pois dois dias antes o ordenança apareceu nos meus aposentos para avisar que esse encontro estava marcado e que eu deveria me apresentar na antessala do gabinete às 16h43.
Pronto. Passei dois dias pensando no que Hitler queria — e, por precaução, fiz um testamento deixando o meu Mercedes para a torcida organizada do Bayern de Munique, porque naquele hospício eu não tinha pra quem deixar.
O fanatismo era tamanho que, em um dos restaurantes mais sofisticados de Berlim, o Exterminium, o cardápio prestava homenagem ao alto escalão nazista: escalope de filé mignon ao molho do Himmler, posta de salmão grelhado no bafo com legumes ao Goebbels, ravioli ao queijo do Göring, costeletas de cordeiro com purê de maçã ao molho do Führer... E assim seguia pelas sobremesas e licores.
Tudo era o líder. Fotos em todos os lugares. Pela primeira vez na vida vi uma oficina mecânica sem um calendário de mulher pelada, mas com pôster do Hitler — braços cruzados, olhando para cima como se estivesse querendo matar muriçoca.
O dia 9 chegou e, com duas horas de antecedência, me apresentei na antessala do gabinete. O ajudante de ordens, o Tenente Hans, estava concentrado preenchendo um álbum de figurinhas. Disfarçadamente fechou o livreto e foi até o telex verificar mensagens.
Notei ao lado da mesa uma máquina Enigma e, na janela, uma gaiola com uns oito pombos. Aquilo me deixou curioso. Perguntei:
— Tenente Hans, por que esses pombos?
E ele, solenemente:
— Aqui no Reich estamos preparados para tudo. Se acontecer um ataque ao telex ou à Enigma, temos os bons e velhos pombos-correio. Aqui é assim. Afinal... vamos ou não vamos durar mil anos? Ou mais uma coisinha.
Na hora exata, fui encaminhado ao escritório do Führer. Mas antes, vale a pena situar melhor o ambiente: o gabinete era um grande espaço dividido em cinco ambientes — uma sala ampla, onde tivemos os primeiros contatos; um salão para lanches e pequenas refeições; o escritório propriamente dito, com uma enorme mesa de madeira, duas confortáveis poltronas e um sofá de dois lugares. Na parede, uma pintura a óleo dele mesmo. Ao lado da mesa, por trás do sofá, uma janela onde ele, nas horas vagas, brincava de cuspir nos pedestres.
Havia ainda uma sala menor, do seu ajudante de ordens, e os toaletes masculino e feminino — este último, no prédio em frente ao estacionamento de motonetas do outro lado da via.
Fui recebido calorosamente:
— Caro Herr Assessor, como tem passado? Estão lhe tratando bem aqui na capital que vai durar mil anos, ou mais uma coisinha?
— Dentro do possível, estou bem. Para quem está, literalmente, a anos-luz de casa, estou ótimo. Em que posso ser útil?
— Meu caro assessor, nossa conversa será mais um questionamento de cunho particular. Algo que preciso muito saber — disse Hitler, franzindo a testa com ar preocupado.
— O senhor sabe que temos investido bilhões de Reichsmarks em armamentos, e até estilista pra desenhar uniforme tivemos que pagar. E até agora... nenhum tiro! Tenho uns seis galpões entupidos de munição, que vai de projétil que abate rolinha até uns grandes e grossos, parecendo tolete, pra derrubar avião.
— Só de sola de coturno é uma fortuna. Cada desfilezinho desses leva meia sola.
— Sem falar na despesa com comida para os jovens da Juventude Hitlerista... comem mais do que impinge!
— Agora me diga, prezado Herr Assessor, tenho ou não motivo de sobra pra me estressar? Chego em casa, querendo colocar um pijama e relaxar, e vem Eva querendo discutir a relação. Só não mandei ela para a casa do chapéu porque ela faz um beicinho de cama como ninguém.
Procurei relatar os fatos como ocorreram historicamente. Tinha receio de alterar qualquer ponto e bagunçar a linha do tempo. Naquele momento, meu objetivo era apenas manter o anfitrião esperançoso — até porque minha vida estava nas mãos dele.
— Meu Führer, o senhor será responsável pelo maior conflito armado da história. Não vai faltar oportunidade para seus soldados atirarem, disso pode ter certeza. E, só para aliviar suas preocupações: em agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética vão assinar um pacto de não agressão, deixando o caminho livre para um passeio de tanques pela Polônia. Gostou ou quer mais?
Os olhos do chefe nazista brilharam de tanta alegria. O verdadeiro gerente do apocalipse com metas mensais a cumprir. Vislumbrava seus planos como se estivessem sendo abençoados pelas forças do destino.
Ao nos despedirmos, recebi dele uma caixa com quatro barras de ouro — do mesmo tamanho e formato daquelas que Silvio Santos distribuía — e, sem querer, ele deixou escapar:
— Peguei algumas dessas antes de enviar para o banco do Vaticano.
Te confesso, meu amigo e confidente, terminei esse dia no Crepúsculo dos Deuses, abraçado a alguns soldados, cantando: Herr assessor é um bom companheiro, ninguém pode negar...
Deus queira que a Elizabeth não saiba dessa parte.
________________________________________
Breve visita à Oficina Jingle Bells
No dia seguinte, ainda agradecendo por ter escapado do caldeirão do demo, e após o café da manhã, fui direto ao galpão onde Wernher von Braun fazia a manutenção no Sino. Chegara a hora de pavimentar meu caminho de volta para minha vida.
Não foi difícil achar o local camuflado onde Wernher trabalhava. Em um bairro afastado, próximo a um posto de triagem especializado em medir nariz — uma obsessão local, pelo visto —, havia a única oficina com uma placa onde se lia: Oficina Jingle Bells – especializada em sinos e sinetas. E lá estava ele, de macacão com a logo da oficina nas costas, embaixo do Sino, ajustando dois relógios que ocupavam quase todo o diâmetro do artefato.
O ambiente era bem ventilado e meticulosamente organizado, porém sem aquele charme das oficinas tradicionais — o belo e clássico calendário das meninas fora substituído por uma foto do Hitler discursando em Nuremberg. Uma clara opção estética pelo terror.
Pela primeira vez desde que fui sugado do futuro, vi nos olhos de uma pessoa a verdadeira satisfação por rever-me.
— Herr assessor, que bom vê-lo. Vamos tomar um café, me acompanhe — falou sinceramente o cientista.
Fomos por trás da oficina, descendo uns degraus até um enorme ambiente subterrâneo, onde algumas dezenas de homens e mulheres trabalhavam num protótipo que, pela planta fixada na parede, pude facilmente reconhecer: era uma temível bomba voadora. No caso, a V1.
Seguimos pelos corredores enquanto o cientista ia descrevendo o que estava sendo feito naquele bunker. Continuamos pelo labirinto de túneis até darmos nos fundos do posto de triagem — e ali, o futuro e o passado pareciam disputar quem ia me engolir primeiro.
Contudo, aquele encontro parecia predestinado. Como se, entre todas as fardas que marchavam por Berlim, apenas nós dois ainda lembrássemos o que era ter alma.
Depois de servido o café, Wernher fechou as janelas, aumentou o volume do rádio e arrastou duas poltronas para perto. Sentou-se com cuidado, como se estivesse prestes a revelar um segredo guardado por séculos.
— E se eu dissesse que você pode voltar para o seu tempo?
A pergunta veio como um sussurro, mas soou em mim como um trovão. Sem conter a ansiedade, disparei:
— O que podemos fazer?
— Aqueles dois relógios no Sino... eles são o código — disse, baixando ainda mais o tom. — O da esquerda empurra para o passado, o da direita puxa para o futuro. Quando ambos apontam na mesma direção, as forças se anulam. O tempo fica suspenso. Um limbo. É nisso que estamos trabalhando.
Fez uma pausa, como quem mede o peso das próximas palavras.
— Estou armando tudo: voo de Berlim para Washington, com escala em Natal. A única peça que falta é o virabrequim do sincronizador. Não tem no mercado negro. Nem na Shopee.
Olhou ao redor antes de continuar, e sua voz quase sumia no zumbido do rádio:
— Vamos manter contato. O assento em que você veio é a sua senha de retorno. O Sino reconhece o passageiro. Errar o lugar pode trazer consequências... imagina alguém voltar e trazer um tiranossauro?
Houve um silêncio breve. Depois, ele se inclinou para frente, sério:
— Sua Elizabeth... ela ainda aparece para você? E o ambiente em que ela está — ainda está completo?
— Não entendi... como assim?
— Vai perceber. Primeiro ela vem, inteira. Você vê o rosto, a roupa e o ambiente ao redor. Mas aos poucos, tudo se dissolve. Começa a sumir um detalhe aqui, outro ali. É o tempo puxando a memória para longe. Se ela desaparecer por completo... aí, meu amigo, não há mais volta. Você perderá o ponto de ancoragem. E sem ponto de volta, não existe retorno.
Nos levantamos. A promessa do reencontro pairava entre nós como um pacto silencioso. Mas antes de ir, senti que precisava dizer algo. Fui eu quem aumentou o rádio dessa vez.
— Amigo, sei o que você está criando. Essas bombas... vão destruir Londres, matar milhares. Mas não vão mudar nada. O império dos mil anos vai morrer em 1945. A Alemanha será destroçada, fatiada entre os vencedores. E tudo — tudo mesmo — será lembrado com horror. Nem você faz ideia das barbaridades que ainda virão.
Ele não respondeu. Apenas ficou ali, quieto, com os olhos presos no chão, como quem busca perdão onde já não há mais inocência.
— Por isso, meu amigo — continuei, com o peito apertado —, faça o que tiver que fazer. E rápido. Precisamos sair desta parte negra da história.
A Cúpula dos Gênios e a Visita
Eu, pensando em chegar na chancelaria, estacionar o Mercedes, comer algo leve e ir para a cama, sou surpreendido com um chamado urgente:
— Herr Assessor, reunião em dez minutos no QG central.
Esse espaço pomposo nada mais era do que uma grande sala de reuniões, com uma mesa oval onde grandes malucos se reuniam para transformar qualquer pequeno acontecimento em algo grande. Muito grande.
Ao entrar na sala, vi que, com exceção do Göring, todos já se encontravam à espera do Führer. Alguns conversando, outros vasculhando papéis nas suas pastas... tudo normal. Parece que nervoso naquele ambiente era apenas eu. Contudo normal para quem só tinha reunião de pais e mestres. Poucos minutos depois, ele adentra a sala e, de pé, todos nós berramos sua saudação. Ele, como se desprezasse todos, apenas levantou um pouco a mão direita, como quem diz: “Estou respondendo por educação”, tamanha má vontade.
Bebeu uns dois goles de água e falou:
— Senhores, há pouco tempo recebi de Roma o comunicado de que o cabeção — digo, Mussolini — quer nos visitar no início de novembro. Ele se auto convidou, mostrando que a educação desses latinos é deplorável. Colocou as mãos para trás, deu dois pequenos passos e continuou: Não nos dá tempo hábil para recebê-lo como se deve a um chefe de Estado. Mas nós, que fazemos o III Reich Alemão — um império de mil anos (ou mais uma coisinha) —, não vamos nos abater com esses pequenos detalhes.
Meu amigo, os aplausos foram contagiantes. Até eu, quando vi, estava aplaudindo.
— O Duce vem de trem, e devemos recepcioná-lo já na estação — concluiu Hitler.
Foi nessa hora que o marechal do ar, Göring, adentrou a sala:
— Com licença... com licença. Desculpem o atraso, tive que levar mamãe ao dentista — falou Göring enquanto colocava sobre a mesa sua pasta de couro.
Hitler simplesmente olhou para ele e decretou:
— Sem comentário, depois falamos.
O general Keitel sugeriu um desfile militar com todas as tropas, armas da infantaria e tudo que mostrasse o poder bélico alemão. E Hitler achou a ideia fantástica — como se o maluco que vai chegar já não estivesse cansado de ver homem marchando.
— Isso, Herr General! Um imenso desfile! Vamos começar por volta das nove da manhã e estender até a hora da sopa. Tá vendo, Göring? É assim que tem que ser! Não ficar queimando o expediente como se fosse funcionário público de republiquetas decadentes que não vão durar nem dez anos — quanto mais mil, ou mais uma coisinha. Você tem algo a acrescentar?
E o marechal, ainda trêmulo, respondeu:
— Sim, meu Führer... Podemos colocar toda a nossa força aérea sobrevoando o desfile, dando rasantes no Portão de Brandemburgo. Já pensou, meu Führer? Mais de doze mil aeronaves voando, e terminando com um salto de paraquedistas!
— Göring... você já assistiu a um desfile militar do III Reich? É uma beleza! Tudo organizado. No palanque, as autoridades conversam, gostam de escutar o locutor falando: “Agora, a Legião Adolf Hitler!” E depois: “Está passando o canhão mais poderoso do mundo, puxado pelo cavalo mais forte do mundo!” Essas coisas... Agora você quer jogar na cabeça da gente doze mil aviões zunindo das nove da manhã até às dezoito horas?! Faça assim: mande vinte, depois de duas horas mais vinte... Assim a gente pode conversar e ouvir a locução do evento. Quero todos os militares marchando até descolar a sola do coturno! Ah, sim, já ia esquecendo: não quero aquela besteira de pirâmide de motociclista, nem carro de bombeiro, tampouco a cavalaria — fica um cheiro de cocô de cavalo entranhado no meu bigode por dias.
Atenção, Himmler: segurança redobrada. Nada de vendedor de churrasquinho, nem pedinte! E você, Goebbels, eu quero muita bandeira pendurada em tudo! Nada de uma bandeirinha aqui, outra acolá. Quero que, pra onde o cabeçudo — digo, Mussolini — se virar, tenha uma bandeira na cara dele! Bem, às seis horas a gente para, toma a sopa e parte para o Palácio dos Esportes, e pegue discursos até umas horas. Ele vai passar três dias aqui — vão ser três dias de desfiles militares e discursos. Quero ver ele sair daqui falando mal da hospitalidade alemã.
Depois da reunião, Hitler conversava com Himmler quando, ao me ver saindo da sala, chamou:
— Herr Assessor, um minuto, por favor.
Quero lhe pedir que, caso nosso visitante faça alguma pergunta sobre a guerra... desconverse. Ainda não sabemos se podemos confiar inteiramente nele. Até que a Gestapo me entregue um relatório completo, todos são suspeitos.
Fez uma pausa breve, como quem procura uma lembrança esquecida.
— Ah, sim... quero você ao meu lado durante o desfile. Bem, é só isso. Boa noite.
Voltei para meu quarto no terceiro andar da Chancelaria. E então, de novo, aquela imagem.
Elizabeth.
Agora, o garçom ainda estava lá, mas algo havia mudado. A mão que segurava a bandeja havia desaparecido. A bandeja flutuava, suspensa por nada — ou por lembrança. A imagem parecia mais desfocada, como uma pintura molhada pela chuva. Mesmo com a imagem turva e os detalhes começando a desaparecer, a beleza de Elizabeth permanecia hipnotizante — como se ela resistisse ao tempo por pura vontade de existir.
Com náuseas, fui até a janela. Ao abrir, a brisa fria de Berlim me acalmou. Respirei.
Aos poucos, o enjoo cedeu. Então, olhei para baixo — dois gatos dormiam sobre o capô do meu Mercedes-Benz, alheios ao drama do mundo. Sorri. Aquilo me prendeu por alguns instantes.
E de repente, como uma lâmpada acesa numa sala escura:
— Meu Deus... o virabrequim!
O motor do Mercedes. Era isso.
O virabrequim do meu carro poderia ser a peça que faltava para fazer o Sino badalar novamente.
Um fato que ocorreu ontem no final da reunião me com a certeza que homens da Gestapo me vigiavam vinte e quatro horas. Quando Hitler afirmou que todos eram suspeitos, claro que eu estaria incluído nesse grupo. Minha vida ficou ainda mais complicada, pois em cada canto em via um agente da Gestapo me observando. Sabe amigo, e devia ter mesmo, ninguém em sã consciência usava¬¬¬¬¬¬ uma pesada capa preta que ia até abaixo dos joelhos, chapéu, sapatos pretos e aí vinha a deixa — meias brancas — e de adorno um jornal debaixo do braço. Então saí para comprovar e tentar causar boa impressão aos agentes do Himmler. Caminhando pelas limpas e largas calçadas nas proximidades da chancelaria, passo em uma banca de jornais, compro um matutino qualquer e vou em direção da sede da Gestado. Os agentes diminuem os passos, atravessam a rua e dobram em um pequeno beco. Conclui — são agentes. Não passaram em frente ao prédio com receio que algum colega os cumprimentasse estragando seu tão “elaborado” disfarce. Pensei: vou encerrar com chave de ouro. Mais adiante, havia um grupo de jovens atirando pedras na vidraça de uma livraria. Então peguei uma — não muito grande — e lancei com a melhor pose que consegui, como se estivesse apresentando meu salvo-conduto. Era meu gesto de integração, meu batismo no absurdo. Eu estava oficialmente infiltrado no delírio. E agora, com um passaporte de pedra e um selo de ignorância tácita, podia continuar vivendo — ou ao menos tentando — pois, com certeza, o Führer iria ficar a par dessa pedrada salvadora.
Agora meu principal objetivo era encontrar o Wernher para dar as boas novas sobre o virabrequim. Tudo indicava que nosso reencontro natural aconteceria no desfile ou durante o discurso da visita oficial do ditador italiano.
De volta à chancelaria, fui abordado por Goebbels, ansioso por ideias para o evento:
— Caro Herr assessor, o senhor que vem de outros tempos, por favor, me dê algumas sugestões! Eu preciso lotar as ruas para os desfiles do nosso ilustre convidado — suplicou o boca de latrina.
Respondi que seria uma boa suspender as aulas e “convidar” — de maneira mais contundente — alunos, professores e seus familiares a participarem desse magnífico evento. E mais: sugeri que dessem um rolê pelos hospitais, bares e similares, convocando todos que estivessem em condições de balançar uma bandeirinha e gritar com convicção.
Goebbels achou ótimo. Disse que isso garantiria ruas cheias e o Palácio dos Esportes lotado. Agradeceu, e mancando, se foi pelo longo corredor.
Me dirigi à cafeteira que ficava no primeiro andar do prédio. Era um lugar lindo, amplo, ventilado pelas grandes janelas. As paredes estavam forradas com um tecido em tom areia, entrelaçado com fios de ouro que desciam do teto ao chão. Em um canto, um piano de cauda reluzia, ao lado de um sax repousando em seu pedestal. As mesas eram cobertas com toalhas brancas de linho egípcio, assim como os guardanapos — ambos bordados com suásticas em fio dourado. O chão de madeira polida refletia a luz de um enorme lustre no centro do teto, acompanhado por outros seis menores, no mesmo formato. E, claro, um grande quadro do Führer o retratava como um cavaleiro medieval.
Subi os degraus já pensando em saborear uma fatia do bolo de nozes — melhor que o da minha mãe (sei que vou ter que responder por isso) — com uma xícara de café. E, como se tivéssemos marcado, o amigo Wernher estava numa mesa no canto, comendo cuscuz com ovo e uma boa média. Cumprimentei o cientista e segui direto ao toalete. Num pequeno pedaço de papel, escrevi:
“Tirar virabrequim do Mercedes. Carro disponível para roubo, primeiro dia do desfile, embaixo do pé de pitomba. Chaves dentro do porta-luvas. Ps. Abasteça”
Voltei ao salão, nos cumprimentamos com um aperto de mão, passei o bilhete discretamente e continuamos nosso lanche, falando trivialidades.
Estive com Hitler pouco antes da reunião final para os acertos das recepções ao representante italiano e sua vasta comitiva.
— Caro assessor, espero que esteja bem. Quero seu parecer sobre a localização do bunker que pretendo construir aqui, no terreno da chancelaria. O marechal Göring sugeriu que seja no pátio externo. O que você acha... o que a história diz?
— Meu Führer, o bunker deve ser construído sob o salão de festas. Ele será usado — apenas como teste — lá por volta de 1945. Posso lhe contar algo que vai te surpreender?
— Claro, Herr assessor.
— O senhor e sua Eva vão se casar nesse local. Será uma cerimônia apenas para os íntimos.
— Acho que essa você errou. Nunca que minha Eva vai querer contrair matrimônio em um buraco. Parece que o amigo não conhece o sexo frágil.  
Eu conhecia o sexo frágil — e também a história — o suficiente para saber que aquele ditador, uma vez que entrasse naquele bunker, transformaria o abrigo em seu túmulo... e no do império que, segundo ele, duraria mil anos — ou mais uma coisinha.
Acompanhei o líder nazista até a reunião final para os preparativos da recepção ao seu aliado italiano. Um detalhe me chamou atenção: Hitler sempre usava o mesmo fardamento. Camisa longa, com dois bolsos — em um, o broche do partido; no outro, a cruz de ferro recebida na Primeira Guerra. A gola era mais baixa (ele tinha pouco pescoço) e a camisa ficava ensacada na calça, que só tinha bolsos na frente. Cinto e sapatos pretos. Toda a vestimenta era na cor marrom, combinando com seu quepe. Em todos os nossos encontros, ele só apareceu uma única vez, em um churrasco em Berghof, com o traje típico da Baviera.
A reunião começou com a discussão sobre a segurança do evento. Fiquei sabendo que dois navios haviam partido rumo a Madagascar, abarrotados de pedintes, sem-teto, desempregados, deficientes físicos e todos aqueles que, segundo a lógica torpe do regime, deviam ser varridos para debaixo do tapete — tudo isso para a honra e glória do Terceiro Reich. Aqueles homens, cercados de mapas e planos, acabaram com a pobreza do país num piscar de olhos. Mal sabiam que o preço seria alto demais: ultrapassaria a matéria, e o espírito continuaria quitando a dívida por gerações.
Depois dessa revelação macabra, os próximos temas pareceram até tranquilos, todos de acordo com as ordens do líder maior. Mal saí da sala e a imagem de Elizabeth me veio forte e clara. Mas agora, numa tomada mais afastada: o garçom ao fundo parecia bem — não fosse a ausência do braço e do pescoço. Sua cabeça flutuava, diminuía até virar um ponto, e depois voltava ao tamanho normal. Como num efeito especial, o pobre homem ia se diluindo no tempo. Mas minha linda Elizabeth continuava firme... me esperando.
A chegada do nosso visitante ilustre aconteceu às sete horas de uma linda manhã berlinense. A estação, ornamentada com bandeirinhas com suásticas e feixes de varas com machado — simbolizando a aliança firmada por seus respectivos ditadores — exibia muitas rosas campestres e um aparato imenso das forças armadas, dando beleza e segurança ao ambiente.
O Führer, com seu habitual conjuntinho marrom, distribuía simpatia. Logo na entrada, pegou crianças no colo, fez gracinhas com jovens da escola feminina hitlerista de Munique e até um cachorro caramelo, que apareceu para prestigiar o encontro, foi devidamente acariciado pelo simpático e bondoso monstro do III Reich.
Todo o seu alto comando estava presente. De civil, apenas sua cineasta Leni — com a missão de engrandecer sua imagem —, eu e o Goebbels, que, embora civil, era o mais radical do grupo de maníacos.
Quando o trem do italiano apontou na estação, a banda já rompia uma marcha militar daquelas que faziam eles se coçarem para sair por aí em passos de cisne. O trem para. No carro da frente, uma figura que misturava uma variada gama de personagens — do terror ao cômico, passando pelo ridículo — surgia pendurada na janela, acenando freneticamente aos comedidos arianos.
Todo de preto, seguiu à frente da sua enorme comitiva ao encontro do ditador alemão. Que cena inesquecível — e pesada. O encontro das bestas do apocalipse foi devidamente registrado por Leni. Sob um frenesi alucinado dos presentes, escutamos as boas-vindas do Führer:
— Bem-vindo ao III Reich alemão. Este passo é o primeiro que solidificará o império de mil anos — ou mais uma coisinha — dos povos amigos.
E, num ato simbólico, Hitler entrega as chaves da cidade ao italiano que, de pronto, as colocou no bolso e respondeu:
— Venho de um império que já durou 500 anos e tenho como missão recolocar o Império Romano ao lado do alemão na busca pela longevidade.
Aí, meu amigo, o público foi ao delírio. Com aplausos e bandeirinhas agitadas, o visitante recebeu, das mãos de uma criança de puro sangue, um buquê de rosas.
Todo o comboio partiu com a Mercedes do anfitrião levando Mussolini em pé, acenando para a eufórica plateia. Hitler, para não ficar por baixo, ficou em pé no banco, tentando se destacar ao máximo do seu “amigo ditador” — cena parecida com uma que vi no filme de Charles Chaplin, O Grande Ditador, por volta de 1968.
O Desfile
Como eu tinha que chegar logo ao local do desfile e, principalmente, à referida pitombeira para estacionar o meu Mercedes, recusei o convite de Keitel para ir no seu veículo até o início da parada militar. Fui cortando caminho por vias paralelas, devido à interdição de todo o percurso da comitiva. Ao chegar no local combinado para estacionar, diminuo a velocidade e, abaixo da frondosa árvore, encosto o carro. Vejo, do outro lado da rua, dois sujeitos estranhos, com roupas de mecânico e uma imensa caixa de ferramentas. Pensei: — Devem ser os rapazes do Wernher — e ainda fiz um discreto sinal com o polegar.
As ruas do evento borbulhavam de gente. Era mulher com criança de colo, jovens pendurados em árvores e postes, homens conversando e apostando qual força iria inaugurar aquele acontecimento tão especial. O que eu achava interessante é que desfile eles tinham todos os dias — e mais de um por dia — entretanto, a propaganda do Goebbels transformou aquele evento em algo tão extraordinário que ninguém podia perder “o momento histórico mais significativo para os tempos modernos”. Era assim que os rádios e os carros de som do partido e do governo convocavam a população.
Ao chegar ao palanque, fui sentar-me ao lado do amigo Wernher, que me cumprimentou com um código:
— Como vai, Herr assessor? Tudo bem... tudo bom mesmo? Difícil encontrar um local para estacionar. Parei próximo a um lindo pé de goiaba. E você?
— Eu estacionei embaixo de uma frondosa pitombeira. Inclusive, tinham dois homens dando suporte a quem não tem a devida habilidade em estacionar veículos.
O cientista empalideceu na hora e falou:
— Mas o manobrista é a prima Gertrudes...
Não o deixei terminar a frase. Pedi as chaves do carro dele e saí direto para o estacionamento da pitombeira. De longe, vejo os dois suspeitos depenando meu carro. Por trás, com o dedo no bolso como se fosse uma arma, anuncio:
— Parados... Gestapo!
Os homens imploravam a tudo que era sagrado para serem poupados dos temidos castigos. Então aproveitei a situação e negociei:
— Certo, vamos fazer um trato. Tirem o virabrequim pra mim, coloquem na sua caixa de ferramentas e podem ficar com as ferramentas e o resto do carro.
Me sentei no meio-fio, à sombra da árvore, e em poucos minutos a dupla me entregava o meu tão esperado ticket de embarque. Fui até uma goiabeira carregada de frutas e, abrindo a porta do Volks do amigo cientista, coloquei com o cuidado que ele merecia o virabrequim para repousar no banco traseiro.
De volta ao palanque, dei a boa notícia ao Wernher, e com um leve aceno de cabeça ele confirmou que tinha entendido.
Nesse momento, a comitiva parou em frente ao palanque principal, e, sob um delírio alucinado dos populares, os ditadores tomaram seus devidos lugares para assistir, até a hora da sopa, a soldados marchando, muitos canhões e, aqui e acolá, um punhado de aviões.
A força aérea de Göring abriu o desfile. De uma frota prometida de vinte aeronaves por leva, sobraram apenas três. O marechal, magoado, fechou a cara e passou todo o desfile amuado num canto.
Entre uma força e outra, os locutores exaltavam o líder maior alemão e aproveitavam para alfinetar o italiano:
— Agora vem o Batalhão Adolf Hitler, o mais bem treinado e equipado grupo militar da Europa, Ásia, Oceania... e do Vaticano!
E tome soldado no passo de ganso que não tinha fim.
Eu já estava com dor de cabeça. Era o povo aos gritos, a banda tentando, em vão, cobrir o burburinho com suas marchas militares, bandeirinhas tremulando — e, sentado, você não via nada, só o mar de bandeiras e o Göring no canto, comendo um sanduíche de pernil, que só se levantava quando seus — agora dois — aviões passavam.
O cientista, disfarçadamente, somava os números das placas dos veículos para tirar os nove fora — passatempo que só um gênio do foguete entenderia — ou resolvia palavras cruzadas em seu jornal.
As horas não passavam. A população, agora afônica, assobiava e aplaudia enquanto o locutor enaltecia a bravura ariana e convidava a todos a ouvir, em loco ou pelo rádio, o maior discurso já proferido no universo.
A Volta
No horário marcado, o desfile terminou e toda a comitiva seguiu para o salão de festas do Reich, onde seria servida uma sopa — receita do próprio Führer.
No luxuoso salão da chancelaria, sentei-me à mesa com Wernher e um coronel que havia chegado há pouco de Moscou. Tinha acompanhado Ribbentrop em sua viagem, com o objetivo de alinhar os pontos do futuro acordo de não agressão entre os países.
Enquanto o coronel se ausentava para atender a uma ligação do comando, o cientista me deu a melhor notícia da minha vida, até aquele momento.
— Herr Assessor, partimos hoje. Acabo de receber a notícia de que a peça foi instalada. O transporte está revisado, com virabrequim novo e tanque cheio. Vamos juntos, no meu carro, para o Palácio dos Esportes — e de lá desviaremos rumo à liberdade.
As lágrimas vieram aos meus olhos. Pedi desculpas ao amigo e expliquei que não poderia me apresentar à Elizabeth daquela maneira — precisava tomar um banho, passar um perfume... o boca-de-latrina tinha passado o desfile inteiro fungando no meu pescoço!
Subi rapidamente, tomei banho, coloquei outro paletó, revisei os documentos e cartões... tudo certo. Pela janela, dei a última olhada em Berlim. Agora, ela parecia calma, tranquila e soberana.
Partimos no Volkswagen seguindo a comitiva, e em um dos postos de gasolina paramos apenas o tempo suficiente para ver que todos haviam passado. O arrojado Fusca seguiu velozmente pelas largas autobahns até pegar uma lateral e parar na tão querida oficina Jingle Bells.
Dois jovens ajudantes do cientista abriram a porta do sino. Acomodei-me no meu assento. Quando Wernher se sentou, tudo começou a piscar: luzes de várias cores, mostradores girando alucinadamente — e, de repente... um vazio. Um silêncio.
A imagem do quadro em que eu via Elizabeth começou a se formar. As peças voltavam às suas posições. A mão, o pescoço, e todas as outras partes do garçom agora estavam visíveis. A bandeja reapareceu. Elizabeth, linda, deixou-me ler em seus lábios:
— Obrigada, estou esperando meu marido.
Tudo parou. Olhei os marcadores. Com um sorriso no rosto, pude ler: 2 de outubro de 1981. Eu estava de volta.
Wernher seguiu viagem. Acompanhei sua vida pelos jornais.
Ao sair do sino, percebi que estava exatamente no mesmo lugar: um galpão onde agora havia uma bomboniere. Saí e fechei a porta. Por pura curiosidade, abri novamente — estava tudo normal: vendedores, clientes e muitos bombons.
Querida, cheguei
Quando entrei no restaurante, Elizabeth me deu um sorriso e comentou:
— Pela primeira vez, você não se atrasou para um compromisso. Cadê meu beijo e meu presente? Não me diga que esqueceu?
O beijo foi dado com um carinho especial. E o presente… bem, do bolso tirei uma simples caixinha, porém de grande valor.
— Não me diga que são meus doces favoritos — alfajor ou mil-folhas de baunilha?
Ao abrir o presente, seus olhos verdes brilharam tanto quanto os diamantes da pulseira. Afinal, diamantes são eternos.
— Bem, amor… vamos almoçar? Estou faminto — parece que estou há décadas sem comer.
Pedi um bobó de camarão e, de sobremesa, doce de coco com mamão. Era meu reencontro com as raízes culinárias.
Depois de três dias literalmente colado em Elizabeth, estava na cozinha lavando a louça do nosso café da manhã quando ouvi um chamado urgente vindo do nosso quarto, no primeiro andar:
— Roosevelt, venha aqui! — Não era nada bom. Em situações normais, ela usava o apelido “Del”. Quando vinha o primeiro nome, era sério.
Ao chegar à porta do quarto, Elizabeth estava com a pulseira nas mãos e, quase soluçando, perguntou:
— Quem é essa Magda? E de onde veio esta pulseira?
E depois do clássico “calma, amor, não é o que parece”, comecei a explicação.
Vai ser difícil te fazer entender o que aconteceu comigo. Parece loucura — e talvez seja —, mas é tão absurda que você pode acabar acreditando.
Fui transportado para o ano de 1938, diretamente para a chancelaria alemã. Essa pulseira me foi dada por Magda Goebbels, esposa do ministro da Propaganda de Hitler, depois que revelei — intencionalmente — um falso futuro sobre o caso dela com o próprio ditador. Como agradecimento, ela discretamente colocou a joia no bolso do meu paletó. E, como diamantes são eternos, a pulseira venceu o tempo e o espaço. Mas, se quiser, pode dar para sua prima Abigail, ou jogar fora…
— Isso deve valer uma fortuna — disse ela, contando os diamantes, um a um. Separou um para avaliação, enquanto eu me vestia para irmos até o joalheiro.
Ao abrirmos a porta da loja, um sino soou, como se nos desse as boas-vindas — e então veio a revelação: minha viagem no tempo foi mais proveitosa do que eu poderia imaginar. Quando nos informaram o valor, eu e Elizabeth trocamos um olhar — parecia que estávamos, mentalmente, fazendo a conta. Te digo, meu amigo: era coisa de milhões.
Você pode perguntar: por que a amante de Hitler me deu algo tão valioso? Simples — o que vem de graça, em quantidade, não tem custo. E, de onde veio aquela pulseira… havia muitas outras.
Saímos da loja e começamos a traçar nosso futuro. Afinal, eu não era mais apenas um professor de História — era agora um turista profissional. Viajamos o mundo. Nosso primeiro destino foi prestar uma homenagem a Wernher von Braun. No cemitério de Ivy Hill, em Alexandria, Virgínia, deixamos uma coroa de flores em forma de sino com os dizeres:
“Ao amigo de viagem — que os sinos dobrem pelos seus feitos.”
Depois seguimos para a Europa — exceto a Alemanha, por razões óbvias — e, por fim, fixamos residência em Lisboa.
Foi assim, meu amigo, que tudo aconteceu. E, se um dia vier a Lisboa, me avise. Vamos tomar um café… e saborear uns pastéis de Belém.
Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 13/07/2025
Alterado em 01/04/2026
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários