Humor, ironia
Ou Vai Ou a Cerca Cai: Crônicas com Humor
Textos que derrubam cercas e arrancam risos e reflexões.
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Textos
Cleópatra: Diário de uma Rainha Nada Inocente
O Arquivo
Envio este papiro para ser arquivado na Grande Biblioteca de Alexandria. Desde que as legiões de César pisaram no Egito, os dias têm se tornado cada vez mais incertos — e carregados de presságios sombrios.
"Ela está insuportável", escreveu o remetente. "Mandou decapitar dois eunucos por terem trocado o flabelo de mão."
Foi assim que recebi — de forma anônima e inesperada — um arquivo com fotos de fragmentos antigos, desenhos enigmáticos e textos comprometedores. Materiais esquecidos que pareciam ter atravessado os séculos apenas para cair nas minhas mãos. Talvez por dois motivos: o primeiro é que sou, que eu saiba, o único ainda dedicado ao estudo da linguagem Demótica, utilizada pelos egípcios para registrar o cotidiano e, mais importante, os pactos que jamais deveriam ser lembrados. O segundo, talvez mais banal, é que hoje quase ninguém tem tempo, coragem ou sanidade para encarar um conteúdo que, linha após linha, revela os aspectos mais sombrios de um acordo oculto entre Cleópatra, seus amantes e forças que desafiam a razão — forças que nem César, nem Marco Antônio, com todo seu poder, conseguiram conter.
Não sou um historiador diplomado, mas atuo como tal desde que entrei para a Escola de Civilizações Desaparecidas, Semi desaparecidas e Ocultas, em uma cidade esquecida no interior do Rio Grande do Norte. Pode parecer estranho que uma escola com nome tão pomposo — e suspeito — exista numa cidadezinha perdida. Mas pense bem: você sabe exatamente o que acontece na Área 51?
Após dias agrupando imagens, nada mais me surpreendia: registros da construção das pirâmides, escravos sorrindo nas horas vagas, Cleópatra sendo penteada por Ptolomeu, ela e Arsínoe chicoteando um eunuco, os irmãos fazendo um churrasco às margens do Nilo. Tudo absurdamente banal. Até que encontrei o diário de Cleópatra. Esse, sim, era perturbadoramente revelador.
Logo nas primeiras páginas, já dava para traçar um perfil psicológico da futura rainha do Egito. Como era costume entre os faraós, ela sabia que se casaria com seus irmãos. "Sangue bom não se mistura", anotou. Desde pequenos, ela e Ptolomeu XIII trocavam maquiagens, vestidos e obsessões. Eles eram fascinados por cobras — fossem de uma ou de duas cabeças.
Apesar da ascendência grega, Cleópatra fez questão de aprender o idioma local. Falava sete línguas, o que associava a uma precoce noção de globalização. Em Alexandria, estudava filosofia e oratória com Ulisses Guimarães — sim, ele mesmo. Anacronismos são meros detalhes quando se trata de Cleópatra.
Fisicamente, era típica das gregas da época: olhos grandes e negros, nariz grosseiro, lábios talhados com estilete. Usava um coque alto, como ditava a moda das princesas com sede de poder.
No 17º dia de Epiphi, ainda como princesa, registrou:
"Não me preparei tanto para dividir o trono com um fraco. Vou usar as riquezas do Egito, os conselhos de Ísis e o poder da perereca para deixar de joelhos qualquer homem, independentemente do tamanho da espada."
Aos 17 anos, com a morte do pai, assumiu a co-regência do Egito ao lado do irmão de 10 anos, com quem foi obrigada a se casar. "Não pense você, que agora está lendo minhas intimidades, que isso era uma escolha."
O Casamento, César e o Delivery
A frágil harmonia entre os co-regentes durou pouco. Aos doze, influenciado por tutores, Ptolomeu XIII expulsou Cleópatra de Alexandria. Ela anotou:
"Vergonha e humilhação causadas por um fedelho e seus tutores terão uma resposta que será estampada em todos os papiros do mundo — ou eu não me chamo Cleópatra, Deusa do Nilo e adjacências."
César, mesmo em Roma, já acompanhava o conflito. Seus interesses no Egito iam além da política: ele precisava de grãos para seus exércitos. E perseguia Pompeu, que fugira para Alexandria.
Ao ser recebido por Ptolomeu, César teve um choque: foi presenteado com a cabeça decapitada de Pompeu.
— Isso é um absurdo! Puta presente merda. Cortaram a cabeça do Pompa! Como se manda a alma embora faltando um pedaço? Vão achar que é quebra-cabeça! E as moedas? Vão grudar onde?
A resposta romana foi imediata: execução dos culpados.
Enquanto isso, exilada em Tiro, Cleópatra preparava seu retorno. Precisava encontrar César e firmar uma aliança — de armas e de corpos. Em seu diário:
"Apolodoro, te dou 20 minutos para me mostrar uma maneira de encontrar o general romano... valendo."
Seu aliado teve a ideia: enrolar a rainha em um tapete e entregá-la como presente.
"O Apolodoro deve estar fumando maconha estragada ou cheirando mirra batizada, pra querer me transformar num enroladinho de Cleópatra..."
Mas o absurdo funcionou. César, em meio a planos militares, foi informado da encomenda.
— Devem ser as porpetas que pedi para o jantar — comentou o cônsul romano, autorizando seu servo a receber a encomenda.
— É... não, meu senhor. É muito grande, pesada e comprida para ser porpeta. Tem forma de tapete, cheira como tapete..., mas pesa como uma vaca — explicou o servo, franzindo a testa, sem fazer ideia do que estava prestes a acontecer.
— Será que é o “Cavalo de Troia” remixado? — exclamou o general, já com a espada em punho.
— Creio que não. Pelo peso... pode ser uma coluna de templo ou... sei lá... seis anões armados.
O servo começou a desenrolar o tapete com esforço, suando como um carregador de obelisco. Quando finalmente abriu o tecido, arregalou os olhos, estupefato:
— Meu senhor... é uma vaca mesmo!
Foram suas últimas palavras. Um punhal atravessou seu pescoço antes que a frase ganhasse eco nas paredes do palácio.
Cleópatra anotou:
"E lá estava eu, limpando o punhal na barra do tapete, quando ele falou: já chegou me dando despesa..."
Nascia ali uma parceria militar, amorosa e dominadora. Juntos, derrotaram os exércitos de Ptolomeu XIII às margens do Nilo. Na fuga, o menino-rei caiu do barco e afogou-se com sua pesada armadura.
Cleópatra e César: Um Casal Instagramável
Com a vitória, Cleópatra reassumiu o trono. Tinha ao seu lado o amante, aliado e ótimo dançarino de tarantela, Júlio César.
Em clima de lua de mel, navegaram pelo Nilo, mostrando aos nativos sua conquista em carne e osso — e a ele, a fartura das terras dos faraós e outras coisinhas mais.
Durante o dia, César visitava templos de Ísis, Mênfis, Tebas e Hórus. Cleópatra, rainha e sacerdotisa, o guiava por rituais sagrados, evocando Rá — que não é a filha do Pepeu e da Baby — Ísis e Osíris como quem sussurra encantamentos ao futuro.
Não sejamos ingênuos: o General e a Rainha não passavam as noites no barco jogando Truco ou Banco Imobiliário. O Grande César descia a marreta na Rainha sem sequer lembrar da esposa Calpúrnia, que em Roma rezava diariamente pela vida do marido. Em uma anotação no diário, Cleópatra registrou o nível do romance: ... o grande César está me deixando com dor em tudo que é orifício...
Cesarión e a Partida de César
Resultado: a Deusa do Nilo engravidou. Em homenagem ao pai, se for menino, o nome será Cesarión. No seu diário, Cleópatra escreveu esta observação: "...mas, por mim, ele se chamaria Adalberto... Se for menina, bem... fazer o quê? Vamos escolher o nome conforme a fase da lua."
A gestação de Cleópatra não foi das mais tranquilas. Teve muitos enjoos e desejos absurdos que foram devidamente registrados: "... hoje me deu vontade de comer açaí na tigela com pão doce."
César acompanhava tudo com paciência e compreensão. Coçava as costas da Rainha, alimentava o balaio de cobras e tocava cítara até sua amada adormecer.
Contudo, sua ausência prolongada em Roma começou a gerar incômodo. Marco Antônio, que o representava no Senado, enviou um mensageiro solicitando seu retorno imediato.
Quando César recebeu a carta, seu filho já estava com sete meses. Ainda assim, a urgência política o impediu de participar do primeiro aniversário do pequeno Cesarión.
Ver o grande César embarcar para Roma — e para os braços da Calpúrnia (eita nominho horroroso) — foi como arrancar uma pirâmide do coração do Egito. Ficou um vazio. Em todos os sentidos. Escreveu Cleópatra no seu diário.
Mas ela não era fraca. Uma filha de Ísis não tem esse direito. Bastou o navio de César sumir no horizonte para que ela começasse a organizar sua ida à terra do seu amor.
E se hoje uma mulher precisa de um guarda-roupa inteiro para passar um fim de semana na praia, imagine Cleópatra preparando as malas dela e do pequeno César. Com o agravante: tudo tinha que ser feito à mão. Ou seja, na melhor das hipóteses, as roupas estariam prontas e embaladas em... dois anos.
A Vida em Roma: Calpúrnia e a Ausência
Em Roma, Júlio César foi recebido com festa. A volta do grande general era motivo de satisfação para todos — exceto para Calpúrnia, que só sentia vergonha. A cada reencontro com velhos comparsas, a mesma pergunta: — E Cleópatra, por que não veio?
Os mais íntimos queriam detalhes assustadores sobre hipnotização de cobras e o misterioso desaparecimento do general por tanto tempo. Cada palavra de mau gosto feria o orgulho da esposa, que só aguardava a intimidade de seus aposentos para desabafar.
— Muito bonito, César! Sai para caçar Pompeu e acaba com safadeza com uma rainha de uma civilização ultrapassada que nem aqueduto tem. E eu aqui, no máximo ia na casa da Nona ou ao Coliseu ver uma lutazinha. Pois se você quiser amolar sua espada, procure outra, ou pegue o beco e volte para Alexandria.
Quando o tempo parecia ter colocado as coisas no lugar, chega a notícia de que Cleópatra embarcou em Alexandria com destino a Roma. Sim, ela mesma, acompanhada do pequeno César, as malas e uma comitiva enorme que dava suporte às necessidades da Rainha e de seu herdeiro, que, para ela, também era herdeiro de Roma.
Ao saber da chegada iminente, César entra em pânico. Com medo de Calpúrnia descobrir antes que ele tivesse tempo de bolar uma boa desculpa, ordena que ninguém, sob hipótese alguma, deixe a notícia chegar aos ouvidos de sua esposa. Proibiu comentários, boatos, sussurros e até expressões faciais suspeitas nos corredores do palácio. Quem falasse “Cleópatra” perto de Calpúrnia, perderia a cabeça — no sentido literal e figurado.
Nesse aspecto, pode-se dizer que o Grande César foi bastante ingênuo. Podia ter decretado sigilo por cem anos ou providenciado uma temporada para a esposa em um spa fora da cidade. Qualquer mulher adoraria respirar um ar puro e sentir o gosto de uma vida pacata, longe das modernidades (e das fofocas) que o progresso romano oferecia.
Infelizmente, esses tipos de notícias surgem como um fantasma — do nada aparecem e somem, mas deixam uma cicatriz enorme. Ao saber da novidade, Calpúrnia recolheu-se em sua casa oficial e lá permaneceu até o fim de seus dias.
Na chegada de Cleópatra, a cidade de Roma parou. Num desfile monumental, a população romana viu a grandeza da Rainha do Egito, a Deusa do Nilo, a filha de Ísis e o Cesarión desfilarem pelas ruas como Deuses no Éden. César, admirado com a beleza e o poder irradiado por sua amada, desce os degraus do palácio para recebê-la e pôr nos braços o seu herdeiro — muito contra a vontade de boa parte do Senado e de alguns familiares.
Cleópatra e o eu filho viveram dois anos nesse local. No seu diário, ela registrou várias passagens onde mostra um pai carinhoso: "...quando acordei, o César e o nosso filho estavam colando figurinhas no álbum dos gladiadores do ano, foi lindo ver...", um amante caliente: "...Cleo, hoje eu venho para o jantar, estou precisando amolar a espada. Adoro amolar espada, vou dar um polimento no esmeril para surpreendê-lo...", e fatos mais corriqueiros como: "O grande César está com disenteria, deve ter comido porpeta estragada."
Contudo, o seu registro mais emocionante foi quando soube do assassinato do seu amor:
"Hoje Ísis abandonou a mim e ao pequeno César. O homem que me levou ao trono do Egito e que nos deu um herdeiro foi cruelmente assassinado. Depois os bárbaros são os outros. Eu implorei para ele não ir ao senado, mas o dever o obrigava. Agora volto à minha terra o mais rápido possível antes que o seu herdeiro e eu tenhamos o mesmo fim..."
Com a ajuda de Marco Antônio, Cleópatra, Cesarión e toda a sua comitiva retornam ao Egito, sem demonstrar arrependimento — principalmente após a abertura do testamento do grande César, que deixou como herdeiro o seu sobrinho Otaviano.
O seu lindo barco, quase um palácio, de velas púrpuras, popa em ouro e remadores prateados que remavam ao som de flauta, zarpou ao amanhecer do porto de Óstia, na foz do Tibre. "Aqui deixo parte da minha vida e do meu coração." Esse foi seu último registro em território romano.
Outro General, a Rainha e o Cupido com Espada
De volta a Alexandria, Cleópatra tinha pressa em recuperar o estrago que sua ausência fez no seu reinado. No seu diário ela escreve essa passagem: "...como dizia meu pai, o olho do dono é que levanta a pirâmide." E por necessidade de mostrar aos seus súditos e aos integrantes do reino o seu poder, saiu em uma verdadeira cruzada pelo país afora. Comeu pastel em feira, colocou criança no colo, inaugurou as novas tochas em Tiro e levou as águas do Nilo até a cidade de Heracleion.
Entretanto, mesmo tendo dias agitados, sua vida parecia vazia. Passava horas debruçada sobre papiros e discutia pormenores em qualquer projeto que lhe chegasse às mãos.
Uma linda pintura dela com César lhe foi presenteada por seu fiel servo e conselheiro Apolodoro, o que lhe trouxe recordações que ela registrou: "...na solidão do palácio, vendo a nossa imagem, lembro dos carinhos e a delicadeza que ele sempre dispensou a mim e ao pequeno César. A idade já pesando, porém, a espada sempre pronta para ser amolada... Ave, César, que saudade."
Passados quase dois anos da sua partida de Roma, em uma manhã maio do ano de 41 a.C., Cleópatra recebe um mensageiro enviado por Marco Antônio, agora um dos componentes do segundo triunviratos, solicitando um encontro com ela na cidade de Tarso.
Pronto, a boa e velha Cleópatra estava de volta. De imediato mandou chamar o Sumo Sacerdote e pediu uma ficha completa de Marco Antônio. Assim foi registrado no seu diário: ...ele agora é importante, o Sumo me falou tudo sobre sua vida. Brilhante general, casado, e, só pra nós, muitíssimo bem servido de espada. Vou já fazer a manutenção esmeril.
A rainha não poupou recursos para impressionar o representante do maior império da face da Terra. Aliás, essa visita chegou em um momento muito oportuno, pois as pesquisas mostravam que boa parte dos egípcios não estava satisfeita com seu reinado. O povo sussurrava pelas esquinas das pirâmides coisas horríveis a seu respeito, chegando até a chamá-la de “piranha do Nilo.”
A cidade de Tarso estava pronta para causar a melhor das impressões a Marco Antônio — e Cleópatra, mais ainda. Vestida com modelitos exclusivos, seus estilistas receberam a missão de produzir roupas sofisticadas, ricas e, sobretudo, provocantes. Isso pode ser visto no seu registro do dia 23 de maio de 41 a.C.: "...quero uma roupa puro luxo, porém leve e ligeiramente transparente. A brisa que soprar do Nilo deve colar o tecido mostrando os contornos do meu corpo. A atenção de Marco Antônio deve estar na Deusa do Egito e não no Egito."
No “seja bem-vindo ao Egito”, Marco Antônio já sentiu o cupido apontando sua flecha e, na primeira cruzada de pernas de Cleópatra, foi atingido no coração — e em outro órgão de grande utilidade masculina. O encontro, que tinha como objetivo firmar uma aliança e garantir o apoio ao governo romano do oriente, para o general já não parecia ter tanta pressa assim.
Ao aceitar o convite para ir a Alexandria e desfrutar das delícias e riquezas que a Rainha e Deusa do Egito tinha a oferecer, Marco Antônio simplesmente não pôde recusar. Principalmente depois de uma flechada tão certeira como a que o cupido proferiu.
"...Antônio é um fofo, acho que vai rolar. Fiquei toda serelepe ao ver o penacho do capacete dele."
Por esse registro no diário de Cleópatra, podemos ver que o cupido disparou flechas adoidadamente e mais um Grande General Romano estava prestes a comer na mão da “frágil e ingênua” representante de Ísis.
Em um papiro datado de fevereiro de 42 a.C., ou seja, bem antes da chegada do representante de Roma, Cleópatra já consultava os astros, pedia conselhos ao Sumo Sacerdote e a Apolodoro sobre maneiras de se aproximar do Império Romano e garantir tanto seu reinado quanto a posição de destaque do Egito na região. Ao seduzir Marco Antônio, ela uniu a fome com a vontade de comer.
Essa lua de mel dura dois anos, até que Roma chama seu general de volta, devido à grave situação política existente. Sua viagem não só deixou saudades em Cleópatra, mas também uma linda barriguinha com gêmeos.
Ela anota no diário: "...lá se vai mais um romano me escampando por entre os dedos e me deixando grávida de duas crianças. Só posso ter cuspido na túnica de Ísis..."
Se ela imaginasse que, em Roma, Marco Antônio iria casar-se com Octávia, irmã de Otaviano... Ela era uma mulher digna e respeitada; o matrimônio foi uma jogada política para manter a paz entre o sobrinho de Júlio César e o general.
Porém, esquecer Cleópatra era difícil. Mestre na arte da sedução, rica, poderosa e insaciável, fazia o romano gemer sem sentir dor.
Em agosto de 37 a.C., Marco Antônio chega novamente a Alexandria e reacende todo o amor que os dois sentiam. "Ele voltou. Amor de perereca é amor que fica... sinto que ele é pra casar."
Juntos, Cleópatra, Marco Antônio e seus filhos: Cleópatra Selene e Alexandre Hélio passaram dias navegando no Nilo, matando a saudade e jurando ficarem juntos até a mordida de víbora. Passado um ano da volta do romano, a Deusa do Nilo engravida novamente e traz ao mundo Ptolomeu Filadelfo. Tem uma passagem que Marco Antônio afirma que sua amada engravida só em lavar sua cueca. É o verdadeiro crescente fértil em forma de mulher.
O Final Que Entrou Para a História e Pro Cinema.
Porém, essa vida de glamour e amor do casal Cleópatra e Marco não durou muito. Em 31 a.C., a força naval de Otaviano entra em confronto com os navios de Marco Antônio e Cleópatra na Batalha de Áccio, na costa da Grécia. A Rainha do Egito participou pessoalmente da batalha e viu, com os próprios olhos, a armada de Marco Antônio — e a sua — serem praticamente dizimadas.
Quando Marco Antônio vê a embarcação de Cleópatra deixando sorrateiramente o campo de batalha, decide segui-la, abandonando a luta e, com isso, consolidando a vitória de Otaviano. Naquele momento, o destino do casal foi selado: ele havia decretado seu próprio fim, e ela, um futuro sombrio para a Deusa do Nilo.
No seu diário, Cleópatra escreve:
"...não foi fácil fugir e deixar ele ali, cercado de navios por todos os lados, mas eu já tinha manicure marcada e, francamente, se é pra morrer, que seja com as unhas feitas. Ave, estratégia!"
De volta a Alexandria, o que era um paraíso passou a ser um pesadelo. Marco Antônio tentava reagrupar exércitos e fortificar a cidade para enfrentar o iminente ataque de Otaviano. Cleópatra, por sua vez, aproveitou o tempo para transferir parte de seu tesouro para fora do país. Em seu diário, ainda houve espaço para um comentário típico de sua personalidade: "...vou não... mas não vou mesmo. A Deusa do Egito não vai ser enterrada em qualquer lugar, não. Vou construir um mausoléu que até Ibrahim Sued vai escrever na coluna dele..."
Além disso, tentou uma última cartada diplomática: negociou com Otaviano a vida de seus quatro filhos, em troca da própria rendição. Esse acontecimento deixou Marco Antônio completamente perturbado e derrotado.
Em agosto de 30 a.C., as tropas egípcias se rendem a Otaviano. O desespero toma conta daquele que um dia foi tenente do Grande César, triúnviro e general do Império Romano, ao receber a notícia de que o amor de sua vida, Cleópatra, estava morta. Porém, essa foi — talvez — a primeira fake news da história.
Tomado pelo desespero, Marco Antônio empunha a própria espada, tantas vezes usada, e finca-a no peito em busca da morte que o livrasse da vergonha, da humilhação e da perda de sua amada. Mas, de tão perturbado, o golpe não foi fatal. Ensanguentado, foi levado à presença de Cleópatra... e morreu em seus braços.
Com Marco Antônio morto, restava a Otaviano capturar Cleópatra como prêmio de guerra, para ser exibida como troféu pelas ruas de Roma. Cesarión, seu filho com Júlio César, foi estrangulado por seu próprio segurança.
A Rainha do Egito, no seu último registro no diário, escreveu: "... saio deste mundo para entrar na história. E tenho dito. Ave Maria, cheia de..."
Impecavelmente vestida, a filha de Ísis abre um lindo estojo em ouro e diamantes e, colocando a mão direita dentro, deixa-se picar por cobras venenosas. De quebra, bebe duas xícaras de café extraforte e deita-se, luxuosamente, no aguardo da azia... e da morte.
No papiro na cabeceira da cama, estava escrito: Ave, César! Te prepara, estou chegando.
Luciano Veiga Fernandes
Enviado por Luciano Veiga Fernandes em 12/06/2025
Alterado em 01/04/2026
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